Festa do Cinema Italiano: «La leggenda di Kaspar Hauser», por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
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Os fãs de Vincent Gallo e de material cinematográfico críptico têm neste «La leggenda di Kaspar Hauser» (A Lenda de Kaspar Hauser) um verdadeiro banquete. Já todos os outros, o mais provável é que admirem inicialmente este OVNI como algo tão diferente que até vão querer saber mais, mas inevitavelmente vão acabar por rir e considerar tudo uma perda de tempo disparatada (muitos nem devem chegar ao fim do filme).
 
Esta «A Lenda de Kaspar Hauser» do italiano David Manuli inspira-se livremente no caso de uma criança abandonada, envolta em mistério, que foi encontrada na praça Unschlittplatz em Nuremberga, na Alemanha do século XIX (1828), com uma carta endereçada a um homem da cidade, explicando parte de sua história, um pequeno livro de orações, entre outros itens, que indicavam que ele provavelmente pertencia a uma família nobre. Porém, nesta readaptação da história, estamos na Sardenha, numa data não especificada. Perto da praia, um corpo flutua. Ele é um príncipe herdeiro (interpretado por Silvia Calderoni) que misteriosamente desapareceu quando era criança. Quis o destino que ele reaparecesse, mas apesar de o corpo reagir, a sua mente parece estar vazia. Apenas um pequeno grupo de pessoas vivem nesta ilha semi-deserta e todos eles vão encarar a chegada desta figura entre a desconfiança, o fascínio, o perigo e a ajuda.
 
Preferindo filmar cenas desconexas numa narrativa pouco compreensível e repleta de personagens e situações bizarras (onde até Vincent Gallo interpreta dois papéis), Manuli cria assim uma obra impar e alienante, onde a teatralidade e expressividade das prestações do elenco surgem como o fio condutor de uma história que muitas vezes mais parece testar a nossa paciência e também o juízo. O facto de o cineasta, com a ajuda do cinematografo Tarek Ben Abdallah, optar por preto e branco hipnotizante e que transpira um clima pós apocalipse, ajuda a carregar o ambiente de estranheza, algo para o qual também contribui a pulsante banda sonora do produtor francês de origem italiana Vitalic (Pascal Arbez), que ao se refugiar numa batida eletrónica muitas vezes monocórdica dá à obra a sensação de estar numa outra rotação no mundo do cinema, o que é perfeito para um filme de pequeno culto, mas que afasta uma audiência mais vasta.
 
O Melhor: É uma obra arrojada, arrogante e sem necessidade ou obrigatoriedade de querer agradar
O Pior:  Funciona em pleno na sua forma de sketchs individuais, mas não como uma longa-metragem regular no interesse e ritmo
 
 
 Jorge Pereira
 
 

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