«The Deep Blue Sea» (O Profundo Céu Azul), por Diana Martins

(Fotos: Divulgação)

 

“I don’t want you
But I hate to lose you
You’ve got me in between
The devil and the deep blue sea.” 
 
Harold Arlen & Ted Koehler
 
A expressão “between the devil and the deep blue sea” diz respeito ao dilema de se ter de fazer a escolha entre duas situações indesejáveis, a premissa do filme. Simultaneamente, já Tom Waits cantava “Cause falling in love just makes me blue”, referindo-se à melancolia, causada pelos desamores dos amantes. 
 
Estamos na década de 1950 e Hester Collyer (Rachel Weisz) está casada com um importante juiz britânico, Sir William Collyer (Simon Russel Beale). Cansada deste casamento estável mas frio, sem paixão, Hester envolve-se fulgurosamente com um piloto da Força Aérea, Freddie Page (Tom Hiddleston), que combateu durante a II Guerra Mundial. A relação, que ao princípio era o que Hester tinha idealmente concebido, começa a tornar-se auto-destrutiva, o que a leva a tentar cometer suicídio. 
 
“The Deep Blue Sea”, realizado por Terrence Davies (“A Casa da Felicidade”), um dos cineastas britânicos mais celebrados pela crítica mas menos conhecidos do grande público, é uma adaptação da peça de Terence Rattigan, escrita em 1952. Sempre na linha da sua obra, é com uma música que enche o ecrã, que o filme se inicia. Não são necessários diálogos ou premissas, apenas um enquadramento pesado musical. Existe ali um momento em que temos a certeza que irá decorrer algo sumtuoso, mas também com um fim trágico, a relembrar  “Melancolia”, de Lars Von Trier. 
 
Muito aspetos positivos sobressaem desta obra: a banda sonora inicial magistral já referida, uma história linear (mas bem contada), um argumento simultaneamente irónico e corrosivo,  e um trabalho de fotografia particular, centrada em tons sombrios que nos encerram no íntimo deste trio de personagens. Rachel Weisz destaca-se num elenco todo ele equilibrado. Há nela toda a angústia de uma pessoa à procura da paixão, do amor ardente- como a mãe de William diz a certa altura : “ Tem cuidado com a paixão, ela leva sempre a algo feio”. E é exatamente nesse “amour le fou“ que Weisz encerra esta dualidade de sentimentos: a fragilidade e a vulnerabilidade  do querer ser amada, porque precisa, e o grito destrutivo do não ter ou do já não conseguir ser.
 
Sente-se em todo o filme um abismo existencial que nos desorienta. Esta complexa teia de relacionamentos destrutivos, que faz lembrar um pouco a intemporal história de Anna Karenina, é adensada pelos silêncios desconfortáveis, por um especial cuidado aos detalhes e uma preocupação estética exímia. Contudo, algo que parece não encaixar são os flashbacks, com alternâncias temporais, que não conseguem resultar numa narrativa tão límpida e fluida como esta. 
 
O melhor: Rachel Weisz e o argumento íntimo e minimalista.
O pior: A falta de fluidez dos flashbacks introduzidos no filme.
 
 
 Diana Martins
 
 

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