Fantasporto 2013: «The Weight», por Diana Martins

(Fotos: Divulgação)

O corcunda Jeong (Jo Jae-hyeon) trabalha numa morgue onde, com uma nobilidade admirável e um cuidado extremo, trata dos últimos rituais dos mortos. Sofrendo de artrite e tuberculose é quase com um olhar dócil que conseguimos contemplar esta personagem que vive num misto de fantasia/realidade com o mundo dos não-vivos, fazendo deles personagens e modelos para as suas pinturas. Simultaneamente, a sua relação tortuosa com o irmão adotivo, Zia, um transexual que não deseja mais viver num corpo semi-masculino.
 
“The Weight”, quinto filme do realizador Jeon Kyu-hwan (mais conhecido pela sua trilogia “Town”Mozart Town, Animal Town e Dance Town), apresenta-nos mais uma obra de um submundo, de um grupo de pessoas alienadas, de e pela vida. Há talvez alguma falta de ritmo na narração, que se transforma em profundas pausas de desconforto, em que nos sentimos, momentaneamente, tão perdidos. Tão sem vida. 
 
“Esta não é a vida dele”, é a premissa que se segue depois de um conjunto de belas imagens iniciais. Mas sabemos que, de facto, nada de belo poderia ser a vida de qualquer personagem central de um filme de Kyu-hwan. Não se vê este filme à procura de beleza. Vê-se para sermos arrebatados, para sermos completamente esmagados pelo peso da vida- “ pensei em contar uma história sobre o peso da vida que o humano tem de carregar consigo, mas como uma fantasia grotesca”. É tal e qual. 
 
É inevitável a comparação de Kyu-hwan a Kim Ki-duk, realizador também com um projeto em exibição no Fantasporto – “Pieta”, não só por ambos serem sul-coreanos e fazerem filmes de baixo orçamento, mas também porque em ambos há uma melancolia triste, centrada em pessoas sós.
 
Todo o filme é um excesso: há um excesso de cheiro a morte, um excesso de violência, um excesso de emoções. Uma demasiado ténue linha que separa o grotesco, o lascivo e o repulsivo do que é perturbador ou provocante. Uma excessiva vontade de querer morrer em vez de um não ser (ou ser como um animal), ou até uma angustiante vontade de existir quando não há, de facto, esperança. A saturação de cores fecha-nos num tom que nos absorve, fechando este mundo de solidão, onde o corcunda curva-se, de vez, perante a vida.
 
Vem à memória o “21 Gramas” do Inárritu, que perguntava “quanto pesa a vida?”. É caso para acrescentar: “Quando pesa a vida? Quanto pesa a morte?”. Nada. No fim, é o sentimento que fica, a vida ou a morte são nada mais que nada.
 
O melhor: A construção das personagens.
O pior: O excesso de grotesco e de violência.
 
 
 Diana Martins
 

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