Talvez os mais de 130 minutos de «Ace Attorney» sejam excessivos e até cansativos para a maioria do público, mas a verdade é que se entrarem no espirito desta fantasia baseada num videojogo da Capcom para a Nintendo DS, o divertimento é garantido. Compreenda-se que tudo nesta obra é altamente estilizado e exagerado (ação, personagens, mundo distópico onde se insere) e que a base, ou pano de fundo é um governo que devido ao aumento da criminalidade decide fazer julgamentos relâmpago – cabendo aos advogados tentar defender ou incriminar os acusados num prazo de três dias.
Mantendo-se fiel à orgânica do jogo (que até foi revitalizado recentemente para smartphones) e a alguns dos seus detalhes e imaginário, até porque este foi bastante famoso no Japão, Miike constrói uma obra de aventuras, com algum humor e um tom de mistério que vai sendo abalado constantemente com as reviravoltas dos casos. No centro das atenções está Phoenix Wright (nome ocidental, já que na versão japonesa ele chama-se Ryuichi Naruhodo), um advogado novato e por vezes trapalhão cheio de boas intenções que terá de ilibar uma jovem injustamente acusada de assassinato. Porém, este caso despertará diversas dúvidas, em particular sobre decisões judiciais do passado, mostrando uma verdadeira cabala de dimensões épicas – e que levará a mais uma série de julgamentos que acompanharemos durante a duração da obra.
Pelo meio das investigações, vão surgindo frequentemente personagens surreais (a mulher que fotografa o “monstro”, o dono da arara, o chefe da policia), todas elas com um tom e visual (os cabelos, as cores) extremamente manga/anime, sendo clara a intenção também de demonstrar que todos os casos de tribunal neste universo foram transformados num verdadeiro espetáculo em que se paga bilhete para assistir e onde não falta tecnologia de ponta para apresentar as provas (para além de sermos brindados com algumas presenças sobrenaturais).
No final, em alegações entre o cómico (há uma arara chamada a depor) e o profundamente rebuscado, chegam as decisões finais dos tribunais, sempre brindadas com confettis num estilo muito semelhante à fonte de inspiração. Com tudo isto, Miike demonstra (mais uma vez) a sua versatilidade, que o transforma num cineasta de excepção e com uma carreira repleta de obras antagónicas, onde povoam verdadeiros filmes choque carregados de perversões e transgressões (como «Visitor Q» e «Gozu»), obras de cariz mais infantil e familiar (Ninja Kids) e dramas de ação histórica ou filmes de época («13 assassinos» e «Sabu», por exemplo).
O Melhor: A primeira hora é um festim de espectacularidade de um mundo tão louco como divertido
O Pior: As reviravoltas atrás de reviravoltas e os seus 135 minutos tornam cansativa a experiência
| Jorge Pereira |

