Fantasporto 2013: «Face to Face», por Diana Martins

(Fotos: Divulgação)

“Face to Face” conta a história de Wayne (Luke Ford), um jovem com problemas de raiva que acabou de ser despedido do seu trabalho como operário numa empresa de andaimes. Este, num ato impulsivo, bate no Jaguar do seu chefe,Greg Baldoni (Vince Colosimo), desencadeando a narrativa do filme. Wayne enfrenta a pena de prisão a não ser que o conselheiro Jack Manning (Mathew Newton) consiga persuadir os dois a chegar a algum acordo. O filme segue assim o processo de disputa/resolução do conflito com dez pessoas numa sala (o chefe, a mulher do chefe, o melhor amigo, a mãe e outros trabalhadores da empresa), arrastando para discussão uma série de outros problemas laborais que acabam por vir ao de cima. Pelo meio, são inseridos alguns flashbacks sobre vários pontos de vista, revivendo diferentes situações.
 
O filme, realizado e escrito por Michael Rymer (“Angel Baby”, “ Battlestar Galactica) é uma adaptação da peça de David Williamson acerca da resolução de conflitos em ambiente laboral na Austrália. Baseado em casos reais e na abordagem alternativa à resolução de crimes existentes neste país, conhecida como Justiça Reconstituinte, a fita lida com as relações no trabalho onde os conflitos raciais e sexuais que são uma constante. Feito com um orçamento reduzido e filmado com uma Canon DSLR 5D series que traz uma luz e textura particular, “Face to Face” surge com uma premissa estimulante e provocante  desde o início. Logo aí, com as personagens todas sentadas numa sala,  vem à memória  “Twelve Angry Men” de Sidney Lumet (1957), onde também há uma meticulosa análise de comportamentos e racionalização de ações discriminatórias que são tidas como aceites num dia-a-dia. Assim, neste filme é particularmente interessante observar como um problema entre duas pessoas gradualmente atinge toda uma nova dimensão, sendo quase uma desculpa para acender um rastilho, porque de facto este era apenas a ponta do iceberg. 
 
Com isto o filme acaba por ser profundamente comovente, à medida que as pessoas se revelam e mostram o seu lado mais humano e surgem as causas que provocaram os efeitos, por trás de atitutes aparentemente injustificáveis. A chave de tudo está na desintegração da construção de cada personagem, acabando por se criar laços de empatia por todas, já que existe um padrão de relações e histórias partilhadas.  
 
O elenco tem todo ele mérito, mas Luke Ford capta a atenção pela sua interpretação tocante, numa mistura de frustração e raiva mas também de ternura, ingenuidade e bondade. Todos os arquétipos esperados estão aqui presentes, desde o chefe mulherengo, à mulher traída e ao mediador calmo e low-profile, que refere, a certa altura, “ Não sou eu, é o processo. Às vezes funciona.” E aqui, de facto, funcionou. É revigorante ver um filme tão apoiado nas palavras, e como isso consegue estabelecer a relação com o espectador de maneira tão poderosa e simples. 
 
O melhor: O argumento instigante que reforça que o cinema é essencialmente palavras,  performances e também, neste caso, o good-feeling que deixa no fim.
 
O pior: Às vezes é demasiado cliché.
 
 
 Diana Martins
 

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