O que é o dinheiro? É o princípio e o fim de todas as coisas.
Realizado por Kim Ki-Duk – responsável por filmes como «A Ilha», «A Samaritana» e «Primavera, Verão, Outono, Inverno…e Primavera» – «Pietà» é um regresso em força de um cineasta bem conhecido do Fantasporto.
Em Pietà, Ki-Duk regressa à velha forma, e consegue o seu melhor filme desde «Ferro 3» (2004). As semelhanças entre essa obra e esta cabem todos numa cova (quem viu os dois filmes percebe), e ficam-se por aí. Neste seu 18º filme, o sul coreano vai buscar na famosa escultura assinada por Michelangelo – na qual a Virgem Maria segura nos seus braços um desfalecido Jesus – a inspiração para o seu título, o seu poster, mas também – de uma forma muito própria – para o seu luto.
Na fita temos Lee Jung-Jin (Wonderful Radio) como um brutal e solitário homem que cresceu como órfão mas que um dia encontra uma mulher (Jo Min-Su) que diz ser a sua mãe. Inicialmente este mercenário (ou diabo que tenta os necessitados com dinheiro de agiotagem) não acredita na história da mulher, mas progressivamente a ligação entre os dois evolui acabando por se descobrir qual a razão que motivou a mãe a procurá-lo. No fundo estamos perante duas pessoas que dão e recebem a dor por causa do dinheiro, e que veem os seus caminhos cruzarem-se.
Se há coisa complicada neste filme é definir os momentos de maior comoção, já que a sua estrutura emocional pesada, crua e visceral – e a forma como Ki-Duk coloca a sua personagem numa espécie de caminho para a redenção – oferecem ao espectador de forma constante sequências dramáticas impactantes que durante muito tempo nos ficam na memória. Nisto há que destacar os dois protagonistas, com uma nota de grande atenção para Jo Min-Su, uma atriz com quase duas décadas de carreira longe da ribalta do cinema local. Seguindo a linhagem dramática da escola sul coreana, onde a expressividade ganha particular força, Min-Su cria uma personagem profundamente ambígua, que tanto nos convence na procura da redenção junto ao filho que abandonou, como se deixa possuir pelas artimanhas da sua agenda secreta.
Com isto, e escondendo muito do seu enredo porque poderia estragar a experiencia cinematográfica a quem me lê, resta dizer que Kim Ki-Duk volta a ter a sua pontaria certeira na forma emotiva e tensa com que trata as suas personagens, a história e até o local onde se desenrola a ação. Ao escolher Cheonggyecheon, em Seul, um espaço que se pode considerar uma personagem nesta história, o cineasta cria uma atmosfera propícia aos eventos, onde os outrora terrenos férteis numa Coreia industrial são substituídos por zonas em decadência, de certa maneira como as personagens que o nosso mercenário de serviço vai visitando ao longo da obra (todas elas almas que se perdem por quererem mais dinheiro).
No todo, «Pietà» é assim um filme bastante poderoso que analisa não só o papel do dinheiro no mundo e como este pode negar a busca da paz interior, mas também como ele parece ser a opção definitiva que as pessoas encontram para substituir as carências emocionais, a falta de amor e a profunda solidão que as assola.
A não perder…
O Melhor: O argumento e a profundidade das personagens
O Pior: Alguns problemas na montagem numa das sequências finais
| Jorge Pereira |

