«O Apóstolo», por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Nesta curiosa animação espanhola em stop-motion assinada por Fernando Cortizo assistimos inicialmente à fuga de dois prisioneiros, Xavier (Luis Tosar) e Ramon (Carlos Blanco), sendo logo de reparar as semelhanças entre Xavier e Malamadre, a personagem interpretada por Tosar em «Cela 211». Mas se pensam que terão o gosto de rever mais uma vez esta personagem no grande ecrã, enganam-se. Este é simplesmente um aperitivo, pois quem acompanhamos numa viagem em busca de um tesouro perdido numa aldeia incomum é Ramon. Convém dizer que o termo incomum é aqui um eufemismo. Na realidade, este local é sinistro, repleto de idosos bizarros, um padre estranho, espectros e algumas situações macabras, como desaparecimentos, por explicar.
 
Tecnicamente «O Apóstolo» é exemplar (cores, formas e atenção ao detalhe), carregando num tom gótico que nos remete para alguns trabalhos de Tim Burton (não necessariamente de animação). Aqui realça-se igualmente o grande arrojo do cineasta em ser fiel a diversas lendas galegas e construir um filme de animação destinado maioritariamente para adultos (coisa rara na frente ocidental do cinema). Porém, nem tudo são rosas. É perceptível que a história deste «Apóstolo» arrasta-se em diversos momentos, havendo infelizmente a nítida sensação que não existe uma continuidade e um ritmo acertado que nos permita permanecer sob tensão (apesar de existirem algumas abertas onde ela claramente funciona). Nisto há ainda que realçar a banda sonora criada por Philip Glass, que claramente dá densidade e terror ao ambiente, bem complementado por algumas personagens desagradáveis que nos deixam constantemente de pé atrás. Há ainda a frisar algumas tiradas de humor negro que só pecam pela sua escassez e contenção, uma clara opção de Cortizo – que nunca quis transformar o seu filme numa comédia de horror.
 
Consequentemente, «O Apóstolo» é assim um filme com interesse e que merece uma clara olhadela, mas que peca por parecer mais uma boa coleção de segmentos individuais com interesse do que um filme continuamente tenso, misterioso e ritmado.
 
O Melhor: o início
O Pior: Há colagens de sequências que cortam a tensão quando devia acontecer o oposto
 
 
 Jorge Pereira
 

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