«Soldier Jane» (Soldate Jeannette) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Os ideais e a estética sobrepõem-se à narrativa neste «Soldate Jeannette», um filme carregado do obscurantismo do cinema europeu dos anos 60 e que procura, num jeito muito particular, mostrar a martirização em relação ao dinheiro e o materialismo nos dias que correm, acompanhando duas mulheres que vão, ao seu jeito, fugir das convenções contra um sistema que as reprime.
 
Construído e filmado de forma improvisada e com um orçamento mínimo, em «Soldate Jeannette» acompanhamos Fanni, interpretada por Johanna Orsini-Rosenberg, uma mulher que vive uma vida de posses acima das possibilidades e que despreza o que adquire. Isso fica logo exposto na primeira cena, quando esta compra um vestido numa loja de luxo e culmina a ação colocando o mesmo num contentor destinado ao exército de salvação. Aos poucos vamos percebendo onde ela arranjou o dinheiro e como já esgotou as suas linhas de crédito, tendo mesmo que abandonar a sua casa (mas só depois da sua aula de artes marciais). Os próximos passos levam-na a retirar do banco uma grande soma de dinheiro, queimando-o posteriormente. Saindo da cidade e indo para o interior, eventualmente irá dar a um local onde fará amizade com Anna (Christina Reichsthaler), uma mulher agastada pela sua condição (se uma está farta da cidade e do dinheiro, a outra despreza os porcos e a vida campestre). Anna assemelha-se a uma versão jovem de Fanni, sendo ela também uma espécie de cruzada em busca de uma reinvenção pessoal  e de uma liberdade que os tempos modernos parecem constranger.
 
Há várias boas ideias na concepção que Hosler dá ao seu filme. A estética e as interpretações são sólidas, dando ao filme um ambiente sombrio, bizarro e misterioso. A isto acresce a particular força dos simbolismos colocados em jogo, desde a queima do dinheiro a uma cena em que ambas as mulheres (que ainda não se conheciam) assistem ao filme «Joan D’Arc», de Carl Theodore Dreyer. Porém, e apesar de ser um forte manifesto, não só do cineasta, mas da produtora que este criou – e que apelida de European Film Conspiracy, «Soldate Jeannette» tem uma construção e uma narrativa demasiado elíptica e distante das emoções que a afastam sempre de atingir um patamar maior, sendo muito fácil mesmo a qualquer espectador colocar o rótulo de pedante e presunçoso a Hoesl.
 
O Melhor: Tem ideias e acima de tudo ideais, ainda que soem um pouco plásticos
O Pior: Obscuro sem retorno emocional
 
 
 Jorge Pereira
 
 

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