IFF Roterdão: «Odayaka», por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Tão cedo o Japão não esquece os eventos despoletados pelo sismo e tsunami de Sendai a 11 de março de 2011. Para além destes desastres naturais terem provocado mais de 11 mil mortos, lançaram também o caos no país, especialmente quando a Central Nuclear de Fukushima sofreu uma explosão cerca de 24 horas depois do primeiro abalo, relançando o pânico e a controvérsia quanto à questão nuclear.

Pegando no cenário imediatamente após o terramoto, Uchida Nobuteru (Love Addiction) pega na história de dois casais que vivem lado a lado para mostrar a transformação psicológica e o manifesto “stress pós traumático» de toda uma nação.
 
Yukako é uma mulher cuja vida consiste em esperar que o marido regresse do trabalho. Com a avalanche de informação contraditória, e socorrendo-se de muitos exemplos de casos semelhantes que encontra na Internet, esta mulher começa a entrar numa rota de paranóia com o problema da radiação e os efeitos que ela poderá ter na população, em particular nas crianças. Na porta ao lado vive Saeko, uma mulher que para além de ter de lidar com o desastre natural ainda é confrontada com uma espécie de epifania do marido que, durante o sismo, só pensava na amante. Frustrado com isso, e agindo num puro ato de egoísmo, o homem decide abandonar a família, filha incluída, deixando Saeko no mais profundo desespero e entregue também à paranoia de proteger a criança de todos os males: a começar pela radiação.

O filme evolui assim em dois níveis, um mais recatado ligado à história pessoal destas personagens e um mais abrangente, pois a ansiedade e o stress de Yukako e Saeko são uma realidade que vai consumindo aos poucos toda uma nação.
 
 

Filmado claramente com um orçamento bem limitado e dependente em grande parte dos diálogos e da interpretação dos atores, «Odayaka» é um pequeno drama de grande qualidade que de uma forma diferente que «Land of Hope» de Sion Sono mostra um Japão à beira de um ataque de nervos e dividido entre os que permanecem optimistas que a alma japonesa é capaz de derrubar tudo e todos os outros que vitimizados ou descriminados pelas evidencias vão colocando questões que todos parecem querer evitar.

Uma nota particular para a interpretação fulgurante de Kiki Sugino como Saeko, ela que é também produtora desta fita e que aparentemente conseguiu gerir muito bem a dupla tarefa que se lhe exigia. É que se a sua personagem parece ter tombado com o desastre natural e o abandono do marido, o que quase provocou a sua morte, também é verdade que com ajuda da vizinha encontrou na filha uma razão para se rejuvenescer e seguir em frente com a sua vida. Talvez o Japão pense nos seus filhos e siga o mesmo caminho, deixando de lado um pouco aquela ideia que temos sempre de nos mostrar fortes mesmo quando estamos de rastos. Orgulho idiota, convenha-se…

O Melhor: O crescendo de ansiedade generalizado 
O Pior: Nada a apontar
 
 
 Jorge Pereira
 

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