«The Act of Killing» por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)

  

Foi possivelmente o filme mais marcante dos que vimos em Toronto. Realizado por um dinamarquês e co-financiado pelo alemão Werner Herzog, este explosivo documentário atreve-se a mostrar os autores dos genocídios de meados dos anos 60 na Indonésia e os métodos que usavam para a matança.
 
Nunca julgados, nunca condenados, sorriem para a câmara e explicam como se inspiravam nos filmes mais sádicos de gangsters para cumprir a sua missão. 
 
O sorridente Anwar Congo, um dos caciques das milícias Pancasila (que também estiveram implicadas nas matanças de Timor Leste), demonstra mesmo para a câmara como eliminavam comunistas de uma forma mais limpa, usando um fio de aço atado ao pescoço da vítima e puxando uma extremidade. Ainda que vá confessando que se “sente perseguido por essas memórias”, por isso admite que procura esquecer cantando, dançando, ou fumando marijuana e consumindo ecstasy. Registos impressionantes mostram comícios da Pancasila exaltando os méritos do trabalho dos “gangsters” ou “homens livres”, segundo o significado da palavra. “Precisamos do trabalho dos gangsters para fazer o que temos a fazer”, exaltava um ministro num comício. Anwar Congo arrepia quando recorda com nostalgia a vida de “relax and Rolex”, antes de encenar uma cena de um filme “dentro do filme” com os amigos em papéis de grotescas personagens de gangsters. No final, saímos de um documentário sobre uma realidade e um passado que nem parece sequer ser questionado pelo atual governo indonésio. Um dos filmes mais marcantes do ano que merece passar em todos os festivais de cinema documental.
 
Paulo Portugal 
 

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