«The Repentant» (El Taaib) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Em 1999, após oito anos de guerra civil e um número estimado de 200.000 mortos, o governo argelino ofereceu uma amnistia a todos os rebeldes jihadistas que descessem as montanhas, depusessem as suas armas e voltassem à sociedade civil. Tudo executado sem detenções ou pressões de maneira a pacificar o processo. Este estatuto dos «arrependidos» (Repentants), era uma forma de ultrapassar o derramamento de sangue e o ódio generalizado que existia entre duas facções que combatem há largos anos.
 
O filme começa com a descida das montanhas por parte de Rachid (Nabil Asli), um guerrilheiro que mostra esse «arrependimento», apesar de alegar «não ter sangue nas suas mãos». A sua chegada à aldeia onde vivia resulta numa série de sentimentos díspares. Os familiares exuberam com o retorno. Outras pessoas, muitas delas com familiares mortos pelos rebeldes, querem fazer justiça pelas próprias mãos.
 
Sem hipótese de permanecer na aldeia, Rachid foge para a cidade, tentando assim regressar à vida civil e contando com a ajuda de um polícia, que lhe encontra um trabalho para que essa integração seja mas célere. Em troca, esse agente só quer algumas informações. Porém, essa integração não é totalmente pacífica e tal como um ex-condenado, Rachid parece não ver futuro no local, engendrando um plano para obter dinheiro a partir de uma família de classe média martirizada por um drama do passado que necessita conclusão.
 
«The Repentant» (El Taaib) começa por ser um filme de redenção com diversos elementos contemplativos na sua análise à personagem de Rachid – muito bem incarnado por Nabil Asli – e na dificuldade de integração de um arrependido na sociedade argelina actual. Merzak Allouache, o realizador, consegue captar bem a nossa atenção através de uma complexidade da personagem e no seu choque com o estado actual das coisas.
 
Porém, a certo ponto, o filme assume uma nova postura, transformando-se num thriller de passo lento, sem nunca perder o foco na análise às feridas de uma guerra duradoura, seja nos perpetradores, seja nas vítimas. Ainda assim falta força, pujança e arrojo. Falta um verdadeiro abanão, ainda que o seu surpreendente final faça o espectador equacionar tudo o que viu até então.
 
 
 Jorge Pereira
 

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