Nove anos depois de ter executado em 2003 um retrato corrosivo dos últimos do franquismo com «Torremolinos 73», Pablo Berger regressa a preto e branco e num formato mudo (com acompanhamento musical) neste «Blancanieves», adaptação em forma de sátira social e paródia gótica do clássico conto dos irmãos Grimm.
Aqui seguimos Carmen (Macarena García), uma mulher cujo pai toureiro (Daniel Giménez Cacho) sofre um acidente na arena exatamente no mesmo dia em que a sua mãe (Inma Cuesta) falece quando a dá a luz. Desprezada pela madrasta (Maribel Verdú), que se aproveita do estado de saúde debilitado do pai, Blancanieves encontra numa trupe de toureiros (que substituem os anões do conto da Disney) o apoio para prosseguir o reinado do pai nas arenas.
«Blancanieves» é um filme que à primeira vista fará muitos se lembrarem de «O Artista», mas este – apesar de ser francês – era uma história americana, passada na Hollywood em transição para o cinema sonoro. Bem pelo contrário, «Blancanieves» transpira a Espanha (em particular a Andaluzia), seja pela aficion tauromáquica, seja pelo flamenco como acompanhamento musical, seja pela recriação de uma Sevilha dos anos 20. Berger explora bem todos esses elementos, carregando a sua obra com nítidos traços do expressionismo alemão, em particular nos seus atores e na forma como demonstram as suas sensações sem recorrer às palavras, dando assim quase todo o peso emocional à imagem e ao poder desta. Neste aspecto, Maribel Verdu está sublime como a vilã de serviço, a madrasta interesseira e temível que não só faz a vida negra a Carmen como também destrata o seu marido, o ex-toureiro agora entregue a uma paralisia.
Mas se todos estes elementos apresentados são elogios a fazer ao filme, nem tudo são rosas. A verdade é que «Blancanieves» tem mais méritos que deméritos, mas se por um lado impressiona o arrojo de Berger em certas situações (como as pancadas sexuais da madrasta), também é verdade que a velha forma de traçar as personagens como simplesmente boas ou simplesmente más é algo que cheira a mofo nas versões constantes deste clássico (e em qualquer um, diga-se de passagem). Na verdade, o que temos é uma lavagem visual e das personagens muito enraizada, mas no final há verdadeiramente muito pouco de novo na orgânica do conto.
Ainda assim, e especialmente para os espanhóis – que ficaram loucos com esta obra – este é um espelho do seu país, particularmente daquela época, no qual eles se revêm nas suas contradições sistemáticas entre a fiesta e os dramas provocados por vilões castradores que os atormentam/atormentaram.
O Melhor: Maribel Verdú
O Pior: Apesar da universalidade da base, este é um filme profundamente enraizado (música, tourada, etc) e como tal dirá mais a um espanhol que a qualquer outra nacionalidade
| Jorge Pereira |

