I’m on fire, declarou Larry Clark no final da nossa entrevista no passado festival de Roma, onde o seu mais recente filme Marfa Girl ganharia o prémio mais importante do certame. Aos 69 anos, o ex-fotógrafo, que se tornou num dos mais acutilantes cineastas do mais radical cinema independente americano, parece estar a iniciar o que ele próprio definiu como uma ‘trilogia’ sobre as personagens de Marfa Girl. Ainda que, na verdade, o grande protagonista seja um rapaz, Adam Mediano, um kid de 16 anos, não ator, como a maior parte dos intervenientes neste relato sobre a vida dos adolescentes de uma localidade com menos de 2 mil almas, no extremo oeste do Texas, conhecida também por albergar uma pequena comunidade de bolseiros de arte, ainda que possa ser mais conhecida por ter servido de cenário para o derradeiros filme de James Dean, ‘Gigante’, em 1956.
Cru, muito cru, difícil para alguns, ainda que saboroso para outros, vivemos o realismo do sexo, drogas e música experimental tex-mex adolescente. Não é sequer desajeitado pensar na máxima hippie, pois está aqui bem patente na fantástica sequência em que a Marfa Girl, fantástica Drake Burnette, nos diálogos com os agentes da polícia fronteiriça acabará por envolver no seu credo de sexo muito adulto.
É claro que não nos podemos esquecer que Larry Clark é o autor de Miúdos (e como poderíamos?), esse valente murro no estômago, datado de 1995, sobre os mesmos kids sem eira nem beira de Nova Iorque. E tal como esse filme, seguramente o que mais se lhe aproxima, Marfa Girl consegue chegar a um depuramento que passa muito pela forma como Clark preenche os espaços em que não se passa nada. Há o olhar de fotógrafo, claro, e a tal fúria de viver que não lhe parece ter escapado, ainda que aqui e ali desprovido da mesma segurança narrativa.
A novidade é que Marfa Girl não vai estrear em sala, mas sim estará disponível a partir do dia 20 de novembro, no site oficial de Larry Clark, a US $5,99 por 24 horas. Segundo Clark, será esta a forma como passará a lançar os seus filmes, porque segundo ele “toda a gente vê os filmes no computador” e porque não acredita em produtores. São todos #&%””!!! (nem vale a pena traduzir…).
| Paulo Portugal |

