Se no passado sempre se preocupou mais em abordar a relação dos caucasianos com outras raças, em particular negros, é verdade que na décadas de 1990 e 2000 começaram a surgir cada vez mais obras que confrontam o racismo existente dentro das chamadas comunidades minoritárias, estando em foco neste «Rengaine» as dificuldades que um casal, ela argelina e muçulmana, ele um negro e cristão, encontram perante quem os rodeia quando se solta a palavra que vão casar. O mais efusivo nessa recusa é Slimane, um dos irmãos da jovem que pelo seu estatuto de mais o mais velho dos irmãos assume a responsabilidade milenar de lidar com a situação. A questão é que ele mesmo se vê preso entre as tradições e uma França multicultural onde cada vez mais se fundem ideais, tendo com peso na sua bagagem moral uma relação com uma judia.
Filmado num estilo que mistura cinema verité com alguns tiques a fazer lembrar o movimento Dogme 95, e recorrendo frequentemente a planos muito próximos da ação, com recurso a vários close-ups (muitas vezes sufocantes), «Rengaine» é um bom exercício entre o documentário e até a ficção teatral sobre uma questão que não se limita ao básico cliché da diferença na cor da pele ou da lição moral. Neste «Romeu e Julieta» dos nossos tempos, existem naturalmente estereótipos, mas a religião, as responsabilidades familiares e toda uma tradição são postos em causa e aprofundados numa sociedade multi-étnica que vai tentando manter, cada um à sua maneira, o seu legado cultural.
Rachid Djaïdani, cineasta em estreia, que já foi entre muitas coisas pugilista, transforma assim o seu filme numa espécie de ringue de debate social, pondo em causa as tradições e dando – como por exemplo Spike Lee o fez com «Não dês Bronca» – diversos socos repartidos a todos os envolvidos na hipocrisia das questões, culminando com uma mensagem de tréguas, mas não definitiva ou verdadeiramente moral. Em suma, estamos perante uma boa surpresa e uma forma de abordagem sincera e honesta pouco comum de um cineasta que teve as ganas necessárias para nos prender num tema já visto e revisto mas dando-lhe uma lavagem bastante própria.
| Jorge Pereira |

