«Babylon» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Pegando no Génesis (Antigo Testamento), no Livro dos Jubileus e no Terceiro Apocalipse de Baruch, chegamos a algumas ideias que apontavam que a Torre de Babel (na Babilónia) teria sido construída pelos descendentes de Noé – na época em que o mundo falava apenas uma língua – com o objetivo de alcançar os Deuses. Indignados com a afronta dos Homens, os Deuses derrubaram a torre e ainda castigaram a humanidade com a separação linguística, ficando estes impedidos de comunicar e de reorganizarem uma nova afronta. 

Esta estória é (algumas vezes)usada para explicar a existência de muitas línguas e etnias diferentes e ganha algum destaque quando a trazemos até Babylon, uma experiência humana incomum na fronteira entre a Tunísia e a Líbia, onde assenta uma nova sociedade mista, um reflexo da primavera árabe e das revoluções que se seguiram e que criaram ondas de refugiados das mais variadas nacionalidades .

Youssef Chebbi, Ismaël e Ala Eddine Slim – o trio de cineastas – não está propriamente no local para apresentar um mero relatório da situação em película, mas antes para observar – uma vezes perto, outras vezes longe – de forma neutra, mas crua, um espaço deserto invadido por escavadoras, tendas, comunicação social, militares, ONG’s e milhares de refugiados.

Essa abordagem torna-se ainda mais impactante quando o trio decide sonegar a legendagem do que vemos no grande ecrã, sendo identificáveis conversas em francês, inglês, árabe, persa, bengali e ainda (supomos) dialectos locais. 

O resultado é assim caótico por opção,  como se os deuses tivessem de novo castigado os homens, pois no meio da degradação e do estatuto de transição que o local possui, existe uma conflitualidade inerente ao facto de estar demasiada gente – que não se entende – num espaço menor do que devia. 

E tal como o Império Babilónico, esta nova cidade também tem os dias contados…
 
 
 Jorge Pereira
 

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