Pegando no Génesis (Antigo Testamento), no Livro dos Jubileus e no Terceiro Apocalipse de Baruch, chegamos a algumas ideias que apontavam que a Torre de Babel (na Babilónia) teria sido construída pelos descendentes de Noé – na época em que o mundo falava apenas uma língua – com o objetivo de alcançar os Deuses. Indignados com a afronta dos Homens, os Deuses derrubaram a torre e ainda castigaram a humanidade com a separação linguística, ficando estes impedidos de comunicar e de reorganizarem uma nova afronta.
Esta estória é (algumas vezes)usada para explicar a existência de muitas línguas e etnias diferentes e ganha algum destaque quando a trazemos até Babylon, uma experiência humana incomum na fronteira entre a Tunísia e a Líbia, onde assenta uma nova sociedade mista, um reflexo da primavera árabe e das revoluções que se seguiram e que criaram ondas de refugiados das mais variadas nacionalidades .
Youssef Chebbi, Ismaël e Ala Eddine Slim – o trio de cineastas – não está propriamente no local para apresentar um mero relatório da situação em película, mas antes para observar – uma vezes perto, outras vezes longe – de forma neutra, mas crua, um espaço deserto invadido por escavadoras, tendas, comunicação social, militares, ONG’s e milhares de refugiados.
Essa abordagem torna-se ainda mais impactante quando o trio decide sonegar a legendagem do que vemos no grande ecrã, sendo identificáveis conversas em francês, inglês, árabe, persa, bengali e ainda (supomos) dialectos locais.
O resultado é assim caótico por opção, como se os deuses tivessem de novo castigado os homens, pois no meio da degradação e do estatuto de transição que o local possui, existe uma conflitualidade inerente ao facto de estar demasiada gente – que não se entende – num espaço menor do que devia.
E tal como o Império Babilónico, esta nova cidade também tem os dias contados…
| Jorge Pereira |

