O efeito devastador da morte de uma criança, seja filho ou filha, é uma temática que o cinema tem abordado com maior ou menor ligeireza. Talvez os melhores exemplos nas últimas décadas sejam «Gente Vulgar» de Robert Redford, «O Quarto do Filho» de Nanni Moretti, «O Futuro Radioso» de Atom Egoyan e «Rabbit Hole» de John Cameron Mitchell.
Jaime Rosales pega nesta temática mas não a oferece ao espectador de mão beijada, voltando a focar-se em vidas quotidianas e pequenos detalhes para mostrar a forma como eventos trágicos repentinos abalam a vida das pessoas: algo que de certa maneira já se tinha visto em «Las Horas del Dia», «La soledad» e «Tiro en la Cabeza». A isto juntam-se interpretações improvisadas e filmadas uma só vez e (com excepção de duas cenas) um preto e branco granulado a 35 mm sem luz artificial que particularmente não torna o filme mais belo, mas oferece consistência.
O resultado final é um filme interessante, que se observa enquanto nos vem Ozu e até Lucrécia Martel à cabeça, mas que aqui apenas funciona de uma forma conceptual e não no resultado final. É que se por um lado Rosales crê que a estrutura de omissões ajuda o espectador a fazer parte da criação do seu próprio cinema, também é verdade que essa intransigência em apresentar cenas chave e até – muitas vezes – com a ação a decorrer fora de cena, levam a que quem assiste seja um mero mirone, um transeunte de passagem, que até pára para ver a tragédia mas que se mantém afastado emocionalmente.
De certa maneira e se pensarmos bem, isso até é bom para evitar maniqueísmos dramáticos, mas esta forma distante, ainda que honesta na busca de novas linguagens cinematográficas, transforma a fita apenas e só num mero exercício de estilo desprovido de alma.
Por isso mesmo, dá a sensação que a (suposta) liberdade que o cineasta opta ao seguir um caminho fora do habitual da narrativa continua acaba por transformar-se numa prisão de formas, sendo óbvia a incapacidade de arrastar o espectador para algo mais que o vangloriar as capacidades cinematográficas. E isso não chega…
| Jorge Pereira |

