«Depués de Lucia» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Pior que a perda em si é sentir que já não se tem nada a perder. Assim se deve sentir Roberto (Hernan Mendoza), um pai destroçado que entra numa verdadeira espiral violenta e cega após uma quase completa submissão a uma depressão derivada da morte da esposa. 
 
Com ele, nesta jornada, está Alejandra (Tessa Ia), a sua filha. Se por um lado parece que o homem luta contra uma depressão constante e uma tentativa de se readaptar a ser um pai solteiro (mudando até de cidade), por outro a sua filha vai acumulando inimizades no liceu, espaço onde é vítima de bullying por parte dos colegas que não perdoam o facto de ela ter permitido ser filmada a ter sexo com um dos rapazes.
 
O filme movimenta-se assim por terrenos levadiços, sendo particularmente difícil assistir de ânimo leve à crueldade implacável entre os jovens mexicanos, algo que já se tinha visto (de forma menos conseguida em «Perras», de Guillermo Ríos). É que se no cinema americano é frequente o ato de bullying e a eterna luta entre populares e nerds, também é verdade que há mais que uma vítima e que estas entreajudam-se a certo ponto da obra, ou então há pelo menos um voz (mais) justa que se levanta. Neste caso particular, Alejandra é apresentada como uma vítima isolada, entregue a um grupo de colegas bárbaros e sem um pingo de humanidade, sentindo-se ainda por cima encurralada por não poder contar ao pai – quer por vergonha, quer por sentir que isso poderia deprimi-lo ainda mais numa fase em que apresenta ligeiras melhorias do estado de espirito. Ora esta prisão da personagem, associada à frustração de assistirmos à sua entrega ao conformismo e à degradação, já nem reagindo a agressões e provocações, transformam a nossa experiencia como espectadores em algo verdadeiramente nauseante, torturante e perturbador. Assim, e tal como Alejandra, nós somos violentados e sentimos com asco e revolta todas as maldades que lhe fazem. [estas sensações ocorreram exatamente no ano passado no LEFF com o filme  (que vira a conquistar o principal prémio) «Twilight Portrait»]
 
Nisto, e embora de forma não intrusiva, salta também uma temática que tem estado em voga no cinema atual. O da vigilância, muitas vezes auto-infligida. Basta ver como exemplo a força que os telemóveis vão ganhando nesta história, seja por ser através das imagens de um deles que temos conhecimento da morte da mãe de Alejandra, seja por ter sido gravado noutro a cena sexual que inicia toda a questão, ou até mesmo pela destruição de um outro aparelho que leva ao aumento da violência e repressão entre os colegas e a vítima. 
 
Sem responder a qualquer questão, sem apontar o dedo, mas claramente marcando uma posição, Michael Franco mostra assim neste segundo trabalho um tom tão tenso como perturbador e um estilo que muitas vezes parece carregar o mesmo peso confrangedor que Thomas Vinterberg imprimiu na sua «Festa» e que Eastwood lavou no seu «Mystic River».
 
 
 Jorge Pereira
 

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