doclisboa’12: «Low Definition Control – Malfunctions #0» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O grande pesadelo orwelliano da vigilância e do controle é o tema de destaque deste (pseudo) documentário «Low Definition Control: Malfunctions», um trabalho de Michael Palm que funciona como uma espécie de diálogo, com imagens intrusivas capturadas num espaço publico qualquer, onde intelectuais de diversas áreas mostram como a percepção transformou-se num olhar paranóico e a assunção da inocência crispou e extinguiu-se no pós 11 de Setembro, transformando o mundo e as suas gentes em objetos a seguir e a estudar matematicamente.
 
Assim somos levados ao longo de 95 minutos, e separados por vinhetas, por uma viagem à captura de imagens, à detecção de padrões de movimentos, a técnicas de reconhecimento facial e muitos outros programas que analisam cada movimento que qualquer um de nós (que é um potencial suspeito) faça, alertando as autoridades quando algo sai do «normal», do padronizado, do previsível. A interacção humana e as motivações são abandonadas a favor dos dados computorizados. Com isto, a ideia da imagem como uma forma de comunicação transfigura-se, transformando-se esta numa ferramenta utilizada contra os comportamentos desviantes, contra a individualidade, contra as novas ideias. Prefere-se o previsível, o pré-formatado que não abane o sistema, ou o ponha em estado de alerta. A realidade é o que está filmado e não podemos acreditar noutro sentido.
 
Mas Palm tem ainda o dom de não se conter apenas no campo da ação policial, ou militar (que hoje em dia se confundem). Ao entrar também pelo ramo da saúde, o realizador abre uma porta até então fechada, e que raros são os que ousam em olhar (sequer) pelo buraco da fechadura. Com esta arrojada declinação noutro sentido, o próprio Palm foge ao que seria de esperar, ao que acima referimos como pré-formatado, sendo ele assim um dos indivíduos cujo o arrojo fez disparar alguns alarmes, mas todos cinematográficos, de alguém definitivamente a seguir…
 
O Melhor: A dor de cabeça que dá depois do filme e a sensação de estar a ser observado
O Pior: O estilo pausado e pouco espampanante (injustamente) afastará o público
 
 
 Jorge Pereira
 

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