Não são muitos os casos em que o cinema e os seus cineastas apostam num plano sequência. «A Arca Russa» de Alexander Sokurov, o thriller colombiano «PVC-1» e o terror do uruguaio «La casa muda» são exemplos recentes, mas quando se passa para o cinema documental, são mais escassos os casos (no que toca a longas metragens). Claro que podemos falar de Andy Warhol e o seu «Empire», mas no essencial, esta gímnica não é de todo comum.
Com isto chegamos a «People Park», um documentário tremendamente conceptual que durante 75 minutos apresenta num único plano sem cortes e edição, toda a dinâmica e vida de um parque citadino famoso em Chengdu, província de Sichuan, na China.
Realizado por Libbie Cohn e J.P. Sniadecki, «People Park», é uma experiência profundamente sensorial (o som é excepcional), por vezes voyeurista, mas acima de tudo social, já que durante 75 minutos, e sempre em movimento, vamos passando por centenas de pessoas, cada uma delas a interagir com o local, seja em forma de trabalho ou lazer, dando uma sensação clara de espontaneidade, apesar de sabermos que logisticamente foi necessário um trabalho meticuloso de preparação e de criação de um percurso.
O resultado final é vibrante, por vezes meramente contemplativo, outras simplesmente naturalista, mas muitas vezes divertido e até surreal, sem nunca cair no entediante – ainda que o conceito possa logo à partida afastar aqueles que gostam que haja uma narrativa que faça mover a acção.
Por tudo isto podemos dizer que esta é uma experiência conseguida, acima de tudo pelo pulsar daquele organismo vivo que o parque representa, onde tanto observamos alguém como somos observados de volta…
| Jorge Pereira |

