O foco nas paisagens estéreis e frias, associado ao tratamento que Yulene Olaizola e Diego Garcia dão a este «Fogo», entregam logo ao espectador o desolador fado dos três protagonistas desta história. E dizemos três porque a natureza aqui funciona como uma personagem indissociável da narrativa, ao que se somam dois homens, reféns da modernidade e presos entre dois tempos – o antigamente e o amanhã – que são confrontados com a triste realidade da morte da sua localidade (na Ilha do Fogo, no Canadá).
Aqui, e de forma nostálgica, fala-se (e canta-se) o antigamente como uma imagem de vida, enquanto se desespera com um futuro incerto. Na verdade, esta ilha é um pedaço de rocha gélido e solitário, mas ainda assim os seus dois únicos habitantes permanecem relutantes em partir, apesar de frequentemente contemplarem o espaço sem qualquer réstia de esperança num futuro diferente.
Há vários pontos de contacto entre esta obra – construída entre a ficção e o documentário – e filmes como «Two Years at Sea» de Ben Rivers (também no Doclisboa), «Anchorage» de Anders Edström e até «O Cavalo de Turim» de Bela Tarr. A solidão e o isolamento são elemento chave de observação, mas não se fala apenas de isolamento em termos humanos, mas também do ponto de vista geográfico.
Com isto, Yulene Olaizola e Diego Garcia – sem trazerem nada de muito refrescante ao tema – carregam o filme com diferentes doses de drama e melancolia, carimbando o seu ritmo na dependência da pacata vida dos protagonistas num espaço natural que os começa a ameaçar.
| Jorge Pereira |

