Estreado no passado Festival de Berlim, «Nuclear Nation», do cineasta japonês Atsushi Funahashi, segue a tendência inevitável do cinema em se focar em problemas sociais, políticos e ecológicos após um desastre. Se na Europa se acentuam os filmes em torno da crise económica e da austeridade, ainda que se centrando em histórias pessoais para contar algo mais abrangente, no Japão intensificaram-se os trabalhos – documentais, ou de ficção (basta lembrar «Land of Hope» de Sion Sono), em torno do problema nuclear.
A questão nuclear sempre esteve na ordem do dia no país do sol nascente, não fosse o Japão a nação que mais duramente lidou com bombas atómicas, sendo mesmo um dos seus maiores ícones, o tenebroso Gojira, um resultado criativo dessa ferida aberta na sociedade nipónica. Por isso mesmo, o drama vivido pós-terramoto, pós-tsunami e pós-acidente nuclear na central atómica de Fukushima reabriu uma grande questão no país, ainda que nada disso sirva neste momento aos habitantes de Futaba, uma pequena cidade da costa leste do Japão, transformada numa nova Prypiat (a cidade mais próxima da central de Chernobyl), forçados a abandonar a sua cidade e a tornarem-se refugiados nucleares dentro do seu próprio país.
O filme – que dispensa qualquer tipo de narração – acompanha muitas das histórias pessoais destas vítimas, juntando tudo num «bolo», e mostrando a desgraça que estas pessoas viveram (e vivem), muitas delas reunidas numa escola primária perto de Tóquio. É lá que Funahashi recolhe testemunhos dos deslocados, assiste ao drama da separação de famílias, e a condições muito limitadas de habitabilidade. A crítica ao governo e à empresa por trás da central nuclear, e até aos comentadores na TV, são o mote, especialmente porque durante anos foram «enganados» na ilusão que estavam em segurança e que uma situação como estas era impensável.
Por outro lado, o cineasta encara ainda – e centra a sua objectiva largos momentos na pessoa de Katsutaka Idogawa, o presidente da Câmara Municipal da cidade, como um rosto de resistência, luta e procura da responsabilização contra a situação. Fugindo da politica da terra queimada, Idogawa dá a voz pelo seu povo e denuncia a negligência criminosa do Governo Japonês e da TEPCO, procurando ainda criar uma nova cidade e não cair no erro anterior, em que a troco de dinheiro e investimento em diversos equipamentos se permitiu a construção desta máquina assassina que despertou após uma tragédia natural.
Por tudo isso, «Nuclear Nation» é uma história importante e um trabalho que merece grande atenção, ainda que mais por aquilo que conta do que pelos méritos cinematográficos – que compreenda-se, não têm nada de errado.
| Jorge Pereira |

