«Captive» (Cativos) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
Um mergulho nas selvas filipinas para fazer um registo à beira do documental, ainda que com montagem de teledisco e cavalgadas de steady-cam, sobre as quase imbatíveis “guerra de guerrilha” – neste caso feita por grupos de muçulmanos supostamente financiados por Osama Bin Laden contra o governo de Manila. 
 
Uma das formas de fazer pressão e arrecadar dinheiro são os sequestros e “Captive” regista um acontecimento real, ocorrido entre 2001 e 2002, quando um grupo aleatório de pessoas, entre asiáticos e europeus, foi capturado e mantido por meses, e alguns durante mais de um ano, nas selvas do sul do país. O realizador filipino Brillante Mendonza já ganhou o prémio de melhor realizador em Cannes (em 2005, por “Kinatay”) e esteve com “Captive” na seleção oficial do Festival de Berlim esse ano. 
 
É evidente que o estilo de cortes abruptos e uma câmara em permanente movimento, com uma banda sonora correta, criam um permanente ambiente de tensão e suspense. Mendonza é feliz em criar um drama verdadeiramente kafkiano para seus personagens, metidos sem entenderem porque numa guerra com a qual não tinham qualquer relação e subitamente sem as bases do que fora a sua vida até ali. Ao mesmo tempo, o ambiente torna-se sufocante na medida em que todo o registo é interior, sem que nunca se fique a saber o que realmente se está, ou não, a fazer para resolver a situação. 
 
O problema é que esta ambientação, intercalada por momentos de calmaria e sequências inteiras de ataques e tiroteios – para além de curiosas e pontuais aparições de “personagens” naturais como cobras, escorpiões, sanguessugas, lagartos, abutres, abelhas, formigas – não chegam para sustentar um filme. 
 
Quando ele termina, talvez não se consiga lembrar uma única conversa, um só diálogo relevante em todo o filme – com possível exceção para o da missionária Therese Burgoin (Isabelle Hupert) com o garoto-soldado Ahmed (Timothy Mabalot). É evidente que isso tem consequências. Falta um verdadeiro conflito e parece haver um desinteresse quase total por construir uma remota sombra do que se chama “personagem”. 
 
Os cativos de Mendonza vão ficando mais familiares enquanto o seu tempo de cativeiro aumenta mas, ao mesmo tempo, quando vão partindo, por boas ou más razões, não deixam rasto nem moção. O exemplo mais notório é o da própria missionária de Isabelle Hupert, um caso verdadeiramente excecional de desperdício de talento. Tão cinzenta quanto os outros, fica-se a não saber praticamente nada sobre a sua personalidade. A única exceção é o líder dos muçulmanos, o enigmático Abu Seyid (Raymond Bagatsing)
 
Politicamente, o ponto de vista do realizador e tão móvel quanto a sua câmara: o fanatismo de alguns guerreiros da Jihad é contrabalançado por um inegável sentido de integridade moral e respeito aos cativos – colocando-os como tão capazes de atos selvagens por um lado quanto de respeito e retidão de caráter por outro. O que, por si, não deixa de levantar questões sobre as justezas, ou falta delas, em todas as guerras.
 
O Melhor: o ambiente sufocante da guerrilha no interior da selva
O Pior: a falta de interesse por construir diálogos e personagens
 

Roni Nunes

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