«No» é o terceiro filme de Pablo Larrain em torno da ditadura militar do General Pinochet. Depois de «Tony Manero» e «Post Mortem», «No» representa o momento de viragem e segue a campanha eleitoral para um plebiscito criado por um Pinochet pressionado pela comunidade internacional para que o povo chileno legitime o seu governo. A resposta da população foi um rotundo não (de onde vem o título do filme) e em particular acompanhamos a forma como a oposição ao regime se uniu e colocou nas mãos de René Saavedra (Gael Garcia Bernal), um publicitário, a tarefa de concretizar uma série de anúncios publicitários que seriam divulgados nos 15 minutos de tempo de antena que tinham direito.
Misturando ficção com imagens reais, «No» é o filme mais comercial e acessível dos três mencionados, mas não necessariamente o melhor, apesar de ser um trabalho bastante conseguido e que tem um poder de atracção maior para o grande publico – já que acompanha aquele género de histórias em que contra as expectativas um povo mudou o seu destino.
Mas mais que um filme sobre o regime, ou a luta contra ele, esta é uma obra de novas tendências, do marketing, da venda de um produto e como se deve lidar numa campanha politica com uma mensagem de esperança e não apenas como um visitar a um passado negro. A bom tempo percebeu-se que o que atemorizava mais a população, especialmente a classe média, era o medo de um novo regime que os fizesse voltar ao limiar da pobreza, oferecendo-se ao invés – através de uma linguagem publicitaria moderna – uma mensagem de esperança e modernidade em relação ao futuro, especialmente porque agora teriam uma palavra a dizer através da democracia.
Bernal está bastante forte como o cérebro por trás da campanha publicitária, deixando no final do filme (com a sua não celebração) uma subtil marca ambígua como se tivesse feito um pacto com o diabo (capitalismo, marketing publicitário) para que a sua campanha triunfasse. Paralelamente, temos ainda acesso com alguma profundidade aos elementos privados da sua vida pessoal, em especial ao seu relacionamento familiar, algo que dá à sua personagem uma dimensão de maior profundidade.
A acompanhar Rene no protagonismo está Lucho Guzman (Alfredo Castro), o seu patrão na empresa de publicidade e o homem que vai orquestrar a campanha do Sim. Nome forte nos dois filmes anteriores de Larrain, Castro encontra aqui uma personagem bastante densa, presa entre ideais e ligações ao regime de Pinochet, mas ao mesmo tempo amigo de René e de certa maneira fascinado com a forma como este trabalha na campanha do não.
De resto, uma nota para a opção de Larraín e do diretor de fotografia Sergio Armstrong em executaram as filmagens com recurso a câmaras U-matic, o que nos transporta para o tipo de imagens da época – conseguindo ainda melhores resultados a nível da junção de material ficional e das imagens reais da época.
| Jorge Pereira |

