«Winter, go away!» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

A certa altura, uma mulher diz que a «Rússia parece uma ala psiquiátrica». Este pensamento, de certa maneira cruel, cliché e generalista, é o que mais sobressai neste «Winter, Go Away!», um documentário realizado por 10 jovens cineastas da escola do documentário Marina Razbezhkina e que esteve em competição no Festival de Locarno na secção Cineastas do Presente.
 
Em bruto, o filme acompanha as tácticas usadas pelos oponentes do Presidente Russo Vladimir Putin durante a campanha eleitoral deste ano (fevereiro e março). Não seguindo uma estrutura muito rígida, e deixando-se levar pelo crescendo de eventos, este trabalho documental – cuidadosamente montado – mostra que a união tão proclamada por Putin é um mero slogan partidário. Paralelamente, este projeto é também uma curiosa forma de mostrar que existe uma linha muito ténue entre o exercer uma oposição e o sabotar um sistema. De comunistas saudosistas do antigo regime soviético, a nacionalistas “modernaços”, a verdade é que os pedidos de uma democracia real e das queixas de abuso de poder por parte do regime e fãs de Putin (muitos deles fanáticos ortodoxos capazes de tudo para afastar os “traidores” da Rússia) esbarram em táticas e esquemas não menos diferentes das dos apoiantes de Putin, . Veja-se o caso de uma banda punk, apelidada de Pussy Riot que neste documentário faz uma ação numa igreja ortodoxa contra o regime. Estas raparigas estão actualmente na barra dos tribunais, sendo provável que lhes apliquem uma pena severa e pouco democrática, ainda que a sua acção tenha sido igualmente longe do aceitável ou um ato de verdadeira oposição (é puro show off promocional).
 
 
 
Assim, e em suma, esta fita não é uma bela visão de um regime agarrado ao poder, mas também não o é de uma sociedade muito pouco capaz de lidar com as diferenças de opinião, e que estimula a pressão e a crítica barata a todos os que se opõem a si.
 
Finalmente, uma última nota para as novas tecnologias aplicadas a estes actos de oposição As câmaras, sejam em telemóveis, sejam em estruturas independentes, parecem ser uma extensão natural  das bandeiras e das palavras de ordem, e seguem os opositores e os defensores de Putin como uma continuação do próprio corpo humano. Depois, o que elas captam, é facilmente manipulado por palavras de “narradores”, aqueles que nos colocam a par do que está a acontecer. Há que notar que este documentário é apenas um conjunto de imagens coladas e sem uma voz off que nos guie. Aquilo que sabemos das situações é dito pelos tais narradores que, em frente às câmaras, exageram frequentemente e de forma eloquente e dão azo a inúmeras paranóias e exercícios de show off.
 
 
 
Por todas estas razões, «Winter, Go Away!» (titulo inspirado num slogan anti-Putin) acaba por ser uma pedrada no charco da racionalidade politica e social da sociedade russa, mostrando que aquela frase feita do início até tem algum sentido para quem, como nós, assiste a tudo à distância.. 
 
 
 Jorge Pereira
 
 
 

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