«Indignados» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O cineasta francês Tony Gatlif (Exils) levou até Berlim este seu «Indignados», um filme ficcional que mistura muitas sequências documentais e que captura o movimento que surgiu na Europa em 2011, logo após a publicação do livro «Indignai-vos», de Stéphane Hessel.
 
Todo este movimento e eventos são acompanhado de perto por Betty (Mamebetty Honoré Diallo), uma jovem emigrante ilegal africana que viaja nos limites das fronteiras numa Europa à beira do colapso da sua coesão social. Do fundo do poço à esperança, esta jovem vai procurar sobreviver nas ruas gregas, espanholas e francesas, e em todas elas vai colidir com a esperança de muitos indignados num caminho de profunda desilusão, tendo ainda de escapar à perseguição policial constante. 
 
E apesar de pelo meio existirem algumas referências à primavera árabe, o filme nunca aprofunda absolutamente nada (nem Betty, nem os Indignados), sendo mesmo tão vago e superficial que se torna quase como os cartazes que são expostos nas manifestações e que funcionam como chavões e pouco mais. O próprio Gatlif socorre-se constantemente dessas frases e vai colocando-as na sua obra, quer diretamente (legendando as suas imagens), quer indiretamente (colocando a nossa protagonista a passar perto de cartazes e murais).
 
Num passado recente em que tantos filmes abordaram a questão de emigração («The Invader» e «Color of The Ocean»), e o fim da ilusão da Europa como um sonho para os africanos («Attractive Illusion», «La-Bas Educazione criminale»), este ensaio de Gatlif acaba por ser o menos conseguido, sendo as sequências musicais/ quase de teatro de rua, que vão surgindo ocasionalmente, a única verdadeira lufada de ar fresco artístico num filme morno e tão vago como os próprios «indignados» são.
 
 
 Jorge Pereira
 

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