Existe uma espécie de inversão no percurso autobiográfico de Rafiki Fariala. Em We, Students!, o cineasta congolês, radicado na República Centro-Africana, apontava a câmara para si próprio e para os amigos, filmando o jovem adulto que era naquele momento. Agora, em Congo Boy, a sua primeira longa-metragem de ficção, recua até ao adolescente que foi antes de ter uma câmara para o filmar. No processo, muda o dispositivo, mas não tanto quanto parece. Como o próprio realizador reconhece, já encontrávamos alguma ficção em We, Students! e continua a existir muito de documentário em Congo Boy.

No filme seguimos um jovem de 17 anos originário do Congo, que é para lá de umas montanhas que se veem ao longe. Com quatro irmãos ao cuidado e os pais detidos, ele tenta sobreviver ao dia a dia, seja através de pequenos trabalhos, como lavar carros, seja através da tentativa de vingar como músico. A prisão dos pais, a responsabilidade de ficar sozinho com quatro irmãos mais novos, a necessidade de trabalhar, a convivência com a violência das milícias numa Bangui violenta e a música enquanto possível saída partem de experiências vividas pelo próprio cineasta, que só quando mexeu no guião com o apoio de Tommy Baron e Boris Lojkine transformou Rafiki em Robert e “a sua vida” numa “narrativa ficcional”.

Poderoso na maneira como emaranha questões como o estatuto de refugiado de guerra, a pobreza, a instabilidade política e a violência das milícias, sem esquecer o seu lado de coming-of-age de afirmação pessoal e identitária, Congo Boy encontra também na forma uma maneira de manter todas essas dimensões ligadas à experiência de Robert. É nesse ponto que a música ganha uma importância que vai para lá da possibilidade de Robert escapar às dificuldades que o rodeiam. Congolês a viver na República Centro-Africana, ele vai escondendo, como pode, a sua origem, o que o coloca numa posição ainda mais frágil enquanto refugiado. Porém, o jovem acaba por transformar essa fragilidade em afirmação, abandonando o nome artístico “Big R” para se apresentar como “Congo Boy”.

Essa afirmação esbarra constantemente, porém, nas responsabilidades que Robert é obrigado a assumir. Com os pais detidos, é ele quem tem de alimentar, proteger e tomar conta dos quatro irmãos mais novos, assumindo uma espécie de papel paternal quando ainda está a tentar perceber o seu próprio lugar no mundo. Quer ser músico, mas isso é coisa para bandidos, lá diz o pai, que insiste que ele tem de terminar o liceu e seguir para a universidade. A doença da mãe obriga-o ainda a uma intervenção rápida para a retirar da prisão. É nessas oscilações entre a responsabilidade forçada e os seus próprios impulsos que Bradley Fiomona Dembeasset, no papel de Robert, encontra alguns dos melhores momentos da personagem.

Fariala, que tinha trabalhado na fotografia de We, Students!, colabora agora com Adrien Lallau, cuja experiência no mundo dos videoclipes (de David Guetta a Angèle) lhe trouxe uma nova capacidade para acompanhar os corpos e as atuações musicais. Nesse sentido, a câmara adapta-se frequentemente aos movimentos dos intérpretes e existe improvisação na mise-en-scène, fazendo com que a ficção conserve uma fisicalidade e espontaneidade próximas do documentário, a que a presença de muitos não-atores acrescenta densidade.

É nisto que a própria cidade de Bangui interfere no dispositivo, já que as filmagens atraíam os habitantes dos bairros, ao ponto de haver cenas em que apareceram muito mais pessoas do que os figurantes previstos. Por causa disso, o realizador chegou mesmo a pegar novamente na câmara e a filmar apenas com membros centro-africanos da equipa, porque a presença dos técnicos estrangeiros atraía demasiada atenção, produzindo uma extensão involuntária do método em que Rafiki introduz o documental na ficção e Bangui introduz a realidade na rodagem, num processo não muito distante daquele que Boris Lojkine levou às ruas de Paris em L’Histoire de Souleymane.

Talvez seja por isso curioso que Congo Boy pareça aproximar-se mais do convencional e até cliché quando mais se aproxima da vida do cineasta. À medida que a música ganha terreno e o filme avança para o concurso que poderá mudar a vida de Robert, começa a desenhar-se aquela velha narrativa de superação. Só que foi mais ou menos isso que aconteceu, tal como é real a fabulosa alegria que vem à cena quando o jovem conclui o ensino secundário. Foi esse fechar dos tempos de liceu que o levou à universidade de We, Students!, e foi o tal concurso musical que lhe deu dinheiro para ajudar a libertar os pais. Nessa lógica, aquilo que na ficção parece apenas uma cedência à fórmula, na verdade é à realidade.

É no balançar entre a realidade e a ficção que Congo Boy talvez encontre a justificação para o cineasta ter trocado o documentário pela ficção. Rafiki não regressa ao passado para o reproduzir tal como ele aconteceu, mas para finalmente poder filmar o adolescente que um dia foi, quando ainda não tinha uma câmara para o fazer. E se por vezes a vida de Robert parece escrita pelo cinema, é porque, aqui, foi a própria vida que chegou primeiro.

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Jorge Pereira
congo-boy-a-vida-chegou-primeiro-que-a-ficcaoÉ no balançar entre a realidade e a ficção que Congo Boy talvez encontre a justificação para o cineasta ter trocado o documentário pela ficção. Rafiki Fariala não regressa ao passado para o reproduzir tal como ele aconteceu, mas para finalmente poder filmar o adolescente que um dia foi, quando ainda não tinha uma câmara para o fazer.