Vincent Munier explica como ‘O Canto das Florestas’ pretende despertar a criança que dorme em nós

Nos cinemas a 12 de novembro

Fotógrafo de natureza e cineasta, Vincent Munier tem construído o seu percurso a partir de uma relação muito paciente e quase silenciosa com o mundo selvagem. Depois de A Pantera das Neves (2021), realizado ao lado de Marie Amiguet e centrado na procura da rara pantera-das-neves no Tibete, Munier assumiu agora a solo O Canto das Florestas (2025), um filme profundamente ligado às suas origens e à ideia de transmissão entre gerações.

Rodado sobretudo nos Vosgos, região onde cresceu e onde continua a viver, com passagens pelo Jura e pela Noruega, O Canto das Florestas acompanha a relação de Munier com o pai, Michel, um naturalista que lhe transmitiu o fascínio pela floresta, e com o filho, Simon, a quem procura agora passar essa mesma paixão e atenção à natureza. No centro dessa linha familiar surge o tetraz-grande, uma ave que fascinou Michel Munier durante décadas e que desapareceu da área, embora continue presente em regiões mais a norte da Europa.

Incorporando imagens extraordinárias captadas ao longo de uma década, totalizando milhares de horas de observação, O Canto das Florestas prolonga assim uma obra onde a contemplação e a observação da natureza cruzam-se com questões familiares.

Na conversa que se segue, efetuada em Paris no início do ano, Munier fala ao C7nema da herança familiar, da relação entre pai e filho, da paciência necessária para filmar animais selvagens e do desaparecimento do tetraz-grande. E nos tempos em que vivemos, onde a inteligência artificial prolifera, o cineasta fala também da necessidade de recuperar a sensação de “maravilhamento” perante aquilo que existe à nossa volta.

O naturalista Michel Munier, o fotógrafo Vincent Munier e o jovem Simon unem-se na floresta para celebrar a natureza e passar o testemunho da conservação ambiental entre as três gerações da família

Vê o seu amor pela natureza como uma herança familiar?

Sim, é isso mesmo. O meu pai vai, muito lentamente, apagar-se, e deixou-me algo. Acho importante tentar transmitir isso ao meu filho. Este filme é sobre essa transmissão.

Talvez o meu filho siga outro caminho, não me importa. Talvez não seja como eu, apaixonado pela natureza, mas terá esses valores, que são preciosos. E os valores que são preciosos são a curiosidade, a benevolência, e a empatia pelos outros. É isso que me importa.

Como é que o seu pai lhe transmitiu isso?

Fui eu que o segui nesse caminho. Ele era um apaixonado e aderi.

Tenho um irmão e uma irmã que também permaneceram ligados à natureza. Ela é bailarina. Faz dança dervixe e dança na natureza. O meu irmão trabalha com canoagem e caiaques. Portanto, continuamos os três, de alguma forma, ligados à natureza, por responsabilidade dos nossos pais.

E depois de La Panthère des Neiges (2021), porque este filme?

La Panthère des Neiges era uma viagem, uma expedição com um escritor, enquanto aqui está toda a minha vida. Conto um pouco da minha infância, do meu filho, do meu pai e da floresta onde cresci e onde continuo a viver.

Tinha vontade de levar este filme ao cinema e talvez consiga também transmitir algumas coisas aos outros.

No fundo, é uma partilha da sorte que tive. Foi um privilégio ter vivido isto e quis partilhá-lo com o maior número possível de pessoas.

O que representa para si a floresta dos Vosges?

Foi ali que comecei a aprender a viver no exterior. Representam muito. É uma floresta um pouco primária, com grandes abetos e outras árvores. 

O Canto das Florestas

 O que representa o tetraz-grande na cultura francesa? Porquê o foco nesta ave?

O meu pai dedicou-lhe toda a sua vida. Trata-se de uma verdadeira história pessoal com a ave, uma tentativa de a proteger. É uma ave enorme que vivia em florestas muito frias, geladas. Surpreendia-o que uma ave tão grande vivesse ali.

E é uma ave muito arisca, muito difícil de ver. Graças a ela, pudemos descobrir todo o mundo da floresta. Mas para isso era preciso ficar escondido durante 13 horas.

No filme existe também uma dimensão sonora muito forte. Como a trabalhou?

Warren Ellis é um amigo desde La Panthère des Neiges. Ele e Nick Cave fizeram a música desse filme.

Aqui volta a trazer a sua magia, o lado misterioso. Já, Dom La Nena e Rosemary Standley [do duo Birds on a Wire] trazem um lado muito sagrado à floresta.

Achei importante trazer essa voz um pouco mística, um pouco lírica. Dá uma certa magia à floresta, de que gosto muito.

Tenho um gato e, ao observá-lo, impressiona-me como parece precisar de tão pouco para estar bem. Há qualquer coisa de inspirador nessa simplicidade. O que é que mais o fascina nos animais e na forma como vivem?

Acho que perdemos um pouco essa capacidade de nos maravilharmos com coisas muito simples. Quando somos crianças, isso acontece naturalmente: maravilhamo-nos mais. Depois crescemos e a vida acaba por nos formatar.

Este filme é também uma proposta para despertar um pouco a criança que ainda existe dentro de nós. Acho isso muito importante. No filme, temos aquela cena do lince, onde me fascino pelo lince que vejo pela primeira vez. Reagi como uma criança. Acho isso extraordinário, porque é importante continuarmos a ser crianças maravilhadas. É uma certa poesia. Gostava muito de Christian Bobin, que era um poeta francês e que conseguia, com pouquíssimas palavras, mostrar que o ordinário pode ser extraordinário.

Quando falamos da transmissão para o seu filho e do seu pai para si, falamos também de responsabilidade. Acha que tem uma responsabilidade? Há uma herança que tem de transmitir ao seu filho?

Existe uma responsabilidade de transmissão. Sem o mudarmos, damos-lhe valores, armas para viver, e depois, evidentemente, ele segue o seu caminho.

O Simon, por exemplo, gosta muito de cozinha e de arquitetura. Talvez nãovenha a ser fotógrafo como eu, mas ainda bem. Felizmente, vai seguir o próprio caminho e aprender. Mas já tem as bases. Acho que ser pai é difíci e perceber o que devemos transmitir é também complicado.

Mas aqui, pelo menos, estes valores são bastante simples. Talvez eles permitam evitar entrar demasiado no mundo do consumo, no mundo das aparências. É isso que é importante, ou seja, regressar às coisas mais essenciais.

O Canto das Florestas

Hoje vemos cada vez mais imagens produzidas por inteligência artificial, incluindo vídeos que podem criar percepções erradas sobre a forma como os animais se comportam. Isso preocupa-o?

Sim. Acho que com a inteligência artificial vamos confrontar-nos com muitos disparates e aberrações. A grande questão é perceber como vamos distinguir o verdadeiro do falso. Isso preocupa-me.

Será preciso haver narrativas e contexto que mostrem a veracidade das imagens. Ainda recentemente vi o caso de uma fotógrafa criada artificialmente por um estúdio: deram-lhe um nome, uma história, disseram que tinha estado nos Himalaias a fotografar a pantera-das-neves, e essas imagens falsas, embora muito bonitas, chegaram a ser vendidas em galerias. É impressionante.

Existe um problema com todas as imagens que vemos, se são verdadeiras ou criações por inteligência artificial.

Sim, é uma loucura. Dá medo.

Como foi o trabalho com a direção de fotografia? Como conseguiram estas imagens absolutamente maravilhosas? O que é preciso saber antes de ir filmar para uma floresta? 

É preciso ter muita paciência. Muita paciência e saber que temos de ter uma espécie de capacidade para nos apagarmos, esconder-nos, ser discretos.

É o que o meu pai me diz no filme: sabemos que estamos rodeados de presenças invisíveis e, se nos escondermos um pouco, conseguimos torná-las visíveis. Elas podem aparecer.

E isso aprende-se como?

Muito lentamente. Primeiro, sendo discreto, não falando demasiado alto, caminhando muito devagar, não fazendo demasiado barulho.E depois vamos aprendendo aos poucos, também lendo alguns livros de naturalistas.

E indo para o exterior ao crepúsculo, ao amanhecer, nas orlas da floresta, sem incomodar demasiado. Observar nas orlas é muitas vezes interessante.

Nos livros aprendemos duas ou três coisas, mas depois é preciso ir verdadeiramente para o terreno. É isso que me agrada neste filme. As pessoas que o veem, quando depois caminham numa floresta, sentem-se um pouco diferentes. Estão mais atentas, escutam, observam. Acho isso muito bom.

Tem muitos projetos?

Também sou montador. Neste filme fui produtor e realizador,  mas tenho outros projetos a chegar. Agora vou dar-me algum tempo. Vou escrever um pouco, refletir. Não posso fazer filmes destes uns a seguir aos outros muito rapidamente.

O livro de fotografias associado ao filme teve um enorme sucesso…

É isso que é extraordinário. Na verdade, é isso que me agrada. É tranquilizador porque as pessoas continuam a ser sensíveis a tudo isto, mesmo quando confrontadas com um filme de ritmo muito lento, muito contemplativo, muito poético.

O Canto das Florestas

Foi fácil financiar este filme?

Não custou muito dinheiro. Éramos uma equipa muito pequena. Estes são filmes de orçamento muito reduzido. São uma bela aventura.

Vivemos na selva das cidades e surpreende-me pensar que estes animais ainda existem. Não são apenas aqueles que via nos livros quando era pequeno. É muito reconfortante perceber que o mundo continua a funcionar como deve ser.

Sim, é reconfortante. E saber que há tantas pessoas que são sensíveis a isso…É encorajador. Dá vontade de continuar.

Mas depois é aquilo que digo: o maravilhamento também é uma porta para a ação, para a proteção. Se as pessoas forem sensíveis a estes animais, a estas paisagens, vão ter um pouco mais de vontade de os proteger.

A natureza é para si um espaço de trabalho, mas também de reflexão e até de espiritualidade?

Sim, completamente. Há também um lado espiritual. A certa altura, o meu pai diz no filme: “Sabes que as árvores também escutam o canto dos pássaros?” Sabemos hoje que, nas florestas onde há muitos pássaros a cantar, as árvores crescem melhor. É extraordinário pensar nessa relação entre as árvores e os pássaros. E acredito que, também para nós, ouvir uma floresta cheia de vida nos faz bem, mesmo sem nos apercebermos.

Numa conversa com o realizador Viktor Kossakovsky, de filmes como Aquarela ou Gunda, ele defende que temos de abandonar a ideia do ser humano como centro do mundo. Concorda com essa visão? E é possível fazê-lo dentro de um sistema capitalista?

Sim. Acho que nós nos colocámos demasiado no centro do mundo, como se o ser humano tivesse de decidir tudo. Precisávamos de regressar a uma posição mais humilde. Mas, quando a economia fala antes da vida, isso torna-se muito difícil.

Tem algum projeto de sonho ou algum lugar onde ainda gostasse particularmente de filmar?

Tenho sempre sonhos ligados ao leste da Europa. Gostava de fazer alguma coisa nos Cárpatos e também no território de Dersu Uzala, no extremo leste da Rússia, junto ao rio Amur. É uma região de que gosto muito. Mas, para já, quero abrandar um pouco, escrever e pensar no próximo projeto. Ainda estamos também a acompanhar este filme, que deverá passar por 15 ou 20 países.

Gostava muito de descobrir a natureza russa, mas neste momento não tenho vontade de ir à Rússia.

Também por uma questão política?

Sim, sem dúvida. E talvez seja também por isso que este filme está a funcionar bem: as pessoas precisam de um pouco de poesia e de doçura. Neste momento, tudo é muito violento. Entre Putin, Trump… é duro.

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