O terreno das distopias, seja no universo literário, cinematográfico ou audiovisual, pode ser fértil na exploração reflexiva das ansiedades políticas da humanidade, porém, quando pouco ou mal explorado, pode criar um mero pedaço de areias movediças que engole o espectador e o sufoca sem qualquer enquadramento meditativo, não indo assim além do entretenimento passageiro ou objeto de valor concetual.
Baseado no romance homónimo de Helene Bukowski, de 2021, a estreia de Sophia Bosch nas longas-metragens, “Milk Teeth”, estreado mundialmente no Festival de Roterdão, consegue com algum vigor envolver o espectador atmosfericamente no seio de uma comunidade fechada rural, mas efetivamente nunca sai do campo do objeto curioso, que ora se sente incompleto, ora derivativo.
Sem nunca referir a forma como a comunidade se isolou, nem como o mundo que a rodeia se encontra,, Bosch centra a sua atenção numa jovem já de si – historicamente – catalogada como “estranha”, Skalde (Mathilde Bundschuh), inserida na comunidade, mas que desafia as sua criteriosas regras quando recolhe uma criança que encontrou na floresta.
O peso do isolamento, o desconhecimento da vida “fora dali”, a superstição e temor perante o que vem de fora regem esta comunidade patriarcal, liderada por um ancião assustador (Ulrich Matthes) que relutantemente aceita que a dita criança possa ficar até perder os dentes de leite (daí o título). Se tal não acontecer, isso apenas revela que a criança é um lobo disfarçado que tem de ser afastado deste local, repleto de bosques e riachos, que criteriosamente os aldeões patrulham munidos de armas, sempre vigilantes contra eventuais ameaças externas.
Retratando diferentes estratégias de lidar com a vida numa sociedade patriarcal encerrada nas suas próprias regras e visões, e com um olhar tímido no abanar com o estabelecido, “Milk Teeth” não se distingue particularmente de outras obras de tonalidade semelhante, mas também é verdade que não dececiona, nem cai na espetacularidade básica do alarido visual ou sonoro de cariz escapista. Na verdade, é a atmosfera constantemente nervosa que a cineasta incita que nos deixa agarrado do primeiro ao último minuto do filme, com a fotografia de Aleksandra Medianikova e a montagem de Andrea Muñoz a contribuírem de sobremaneira para que esse mundo misterioso nos deixe o desejo de conhecer mais.




















