Se procuram uma substância audiovisual estimulante, capaz de vos acelerar o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea, dilatar as pupilas e levá-los das 33 RPM para as 45, então o melhor é recorrerem ao isralita Uri Marantz e o seu filme-estreia, “King Khat”, uma pílula audiovisual incapaz de nos deixar indiferentes.

Imiscuindo atores reais em cenários animados, de fundamento estético que apela à supremacia sensorial, embora a narração palavrosa reduza tudo a uma forma de audiobook ilustrado, “King Khat” caminha algures entre o aviltante e o glorificante na sua história de “empreendedorismo”, onde o protagonista é Gabi Shalev, um “génio” (QI de 168) que depois conseguir o Doutoramento em Biologia entra pelo universo das drogas psicoativas, inventando um produto legal, a partir do qual construiu um império que de Haifa partiu para todo o mundo.

Qual “biopic”, qual quê, embrulhado em doses sugestivas de sarcasmo ao capitalismo e globalização, esta é uma história da procura pelo sucesso de um homem que em miúdo ambicionava encontrar a cura para o cancro e ganhar o Nobel, mas que após os tropeços da vida seguiu uma rota à la Walter White de “Breaking Bad num mundo obcecado pela cultura da inovação e startups, e que confunde sucesso com dinheiro. De Israel a Nova Iorque, passando pela Índia, a resposta de Shalev à falta de riqueza para comprar cocaína, para consumo próprio, tinha apenas dois caminhos: arranjar mais dinheiro, ou criar um produto substituto capaz de replicar a sensação dessa droga. Acabou por ser abalroado pelas duas coisas a partir da folha de Khat iemanita, a qual esquartejou e sintetizou para efeito imediato (em vez de ter de mascar a folha durante horas para sentir o efeito). Desenhando a molécula, orientada para uma determinada reação, e produzindo a substância (Hagigat) num laboratório, Gabi Shalev viu a chegada do seu sucesso com uma nova atenção por parte dos poderes judiciais, executivo e legislativo, que rapidamente ilegalizou o Hagigat e toda a sua família química, tornando-o o inimigo público número 1 da populça. A vida do “criador”, entretanto enamorado e com um descendente, viu-se assim num rebuliço, obrigando a nova reinvenção, materializada numa nova substância que estivesse fora do proibicionismo.

Humor não falta nesta história de “sucesso”, demarcada por um ritmo bem longínquo de qualquer tédio, tal como bicadas aos contrassensos do mundo ocidental, em particular à ténue ligação entre o proibicionismo recreacional e a inevitabilidade medicinal (tratamentos contra depressão, aliviar sintomas de Parkinson, tratar Stress Pós-Traumático). Mas, no todo,  “Khing That” nunca supera a ambição de ser apenas objeto curioso e fora-da-caixa narrativa. 

Na verdade, nem todas as explosões alucinantes audiovisuais são efetivamente cinemáticas, especialmente as que dependem tanto das palavras. Nestas, o visual adjacente serve somente de mera companhia.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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