De 2012 a 2015, a franquia “Hunger Games”, baseada na série de livros homónima de Suzanne Marie Collins, editada em Portugal pela Presença e, no Brasil, pela Rocco, mobilizou fortunas, na casa dos 3 mil milhões de dólares, apoiada no carisma de Jennifer Lawrence. Em certa e funcional medida, foi a cinessérie que substituiu “The Twilight Saga” no coração dos jovens adultos da década passada e semeou o solo onde a distopia, tão bem defendida por “The Handmaid’s Tale”, viria a crescer, em séries e filmes. A questão é: “The Hunger Games” foi esquecido, tal qual o conjunto de filmes de vampiros românticos com Kristen Stewart e Robert Pattinson foi apagada do imaginário cinéfilo. Custou pouco, lucrou muito, mas… apagou-se. Nãose transformou num novo “Star Wars”, nem devorou Oscars como a trilogia “The Lord Of The Rings”. São sequelas do pop, os efeitos colaterais da busca desenfreada por um cinema de algoritmos e não de ideias.

O regresso dessa marca anfíbia – meio literária e meio cinematográfica – com um filme tão opaco como “The Hunger Games: The Ballad of Songbirds & Snakes” expõe o desespero da indústria de correr atrás do lucro, diante da falência gradual do filão dos super-heróis. Uma vez superada a jornada heroica da arqueira Katniss Everdeen, vivida por J. Lawrence (atriz que já não é a estrela de outrora, apesar do seu desempenho impecável no recente “No Hard Feelings”), a solução procurada por Hollywood foi apelar para prequelas e explorar as personagens secundárias que ajudavam a construir a mitologia daquele universo. A escolha inaugural para ressuscitar a dramaturgia de Suzanne foi Coriolanus Snow, alcaide da cidade-estado de Panem, terra na qual Olimpíadas mortíferas entorpecem uma população servil. Donald Sutherland foi quem deu vida à personagem, na sua versão mais aristocrática.

Ao lado de um insosso Tom Blyth, Viola Davis é tudo o que salva o regresso da franquia “The Hunger Davis” – Crédito: Murray Close/Lionsgate/Murray Close/Lionsgate – © 2023 Lionsgate

A ideia deste olhar retrospectivo sobre ele é entender como aquela realidade distópica de reality show sanguinário se estabeleceu como génese de uma sociedade predatória. Deveria ser uma trama mais política, de reflexão e investigação, mas o que vemos é um insosso mito de formação. Francis Lawrence, o realizador convocado para a dura tarefa de colocar esse cosmo ficcional de pé, veio de uma larga estrada de videoclipes e deu aos nerds deste planeta um filme de culto baseado em BDs, “Constantine”, um dos momentos two thumbs up da carreira de Keanu Reeves, decalcado do comics Hellblazer”, e lançado em 2005. Ele fez, de seguida, o fenómeno global de bilheteiras “I Am Legend” (2007), com Will Smith e Alice Braga. Ou seja, ele sabe trançar ação, fantasia e realidades alquebradas.

O que salva minimamente “The Ballad of Songbirds & Snakes” do tédio absoluto – além da sempre grata presença de Viola Davis – são as sequências de perseguição e tensão criadas pelo cineasta. Mas não existe nenhuma profundidade no drama interno de Snow ou da suposta heroína, Lucy Gray Bird, emperrada pela arfante interpretação de Rachel Zegler. Snow é confiado a Tom Blyth que, em igual medida, afoga o protagonista da longa-metragem na nulidade. Nada no guião parece iluminar os conflitos existenciais ou morais de ambos. Nenhum conflito psicológico deles se faz crível. O que vemos é um Snowno fim de adolescência incumbido da mentoria de uma jovem valquíria, chamada Lucy Gray Bird, interpretada por Rachel. Vinda de um dos distritos de Panem, ela tende a ser uma heroína lendária numa competição que se desenrola sob os auspícios da Dra. Gaul (papel da sempre afiada Viola). Mas a ideia de que o processo de comunhão entre Bird e Snow possa revelar o que virá a ocorrer, epistemologicamente, naquele pedacinho do Inferno na Terra nunca se consolida.

Lawrence até tenta, mas a argamassa dramática que tem nas mãos não ajuda. Para piorar, a montagem dilata em demasia o que deveria ser ágil e agiliza deverasmente o que precisava ser mais ralentado. Assim sendo, é fogo que não arde, mas faz doer, de tédio.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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