A política é sempre um bicho estranho de se filmar: os intervenientes numerosos, os processos pouco claros, a multitude de temas, e a demagogia, agora acentuada pela consciência mediática exacerbada pela presença e utilização das redes sociais. Em “A Câmara”, Cristiane Bernardes e Tiago de Aragão, a primeira doutorada em Ciências Políticas e o último em Antropologia, tentam seguir o trabalho de várias deputadas do Congresso Nacional do Brasil em diversas comissões temáticas. Para isso, assumem apenas o papel de observadores que se limitam, sem entrevistas e sem uma narração, a filmar as deputadas, às quais é dado espaço para mostrar e defender as suas ideologias, não em discursos preparados, mas na sua participação política.

Perante a polarização que se sente mundialmente, este poderia ter sido um documentário que assumisse um ponto de vista óbvio, exaltando a facão política com que os autores se alinham e demonizando as outras, mas não é isso que acontece. Há, de facto, uma visão crítica das ideologias e processos, mas é construída de forma subtil, nunca sendo proferida de forma explícita. Isso não quer dizer que não haja aqui momentos de conflito ou de constrangimento, apenas que são mostrados como tal, sem comentário.

Uma das formas que a crítica é feita é a partir da estrutura do próprio filme, que primeiro mostra a ideologia das participantes, e depois mostra os programas políticos debatidos, tornando claro o abismo que existe nas correntes evangélicas, cada vez mais representadas na direita brasileira, entre aquilo em que dizem acreditar e aquilo que implementam. Outra cai na forma como os “media” são usados de forma maciça e quase agressiva, como quando uma deputada começa imediatamente a filmar outra que não concorda com ela e lhe diz que, a continuar assim, de certeza que será processada.

Mas é mesmo pela boca que morre o peixe e são impressionantes as voltas ideológicas necessárias para sustentar posições para situações que são inegavelmente más. Felizmente não passam por negar a existência destas situações ou reduzir o seu estatuto moral, mas, a nível de consequências, são igualmente condenáveis. Feliz ou infelizmente, estas posições são demasiado conhecidas de qualquer pessoa que passe mais do que cinco minutos numa rede social, portanto o factor do choque é, por esse lado, bastante menor.

Este é um documentário que, apesar de filmado no Brasil, consegue retratar as lutas políticas de quase todo o mundo e a ameaça que a direita, apoiada por qualquer forma de religião, apresenta à democracia, já bastante fragilizada.

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Pontuação Geral
João Miranda
a-camara-um-estudo-etnologicoUm documentário que, apesar de filmado no Brasil, consegue retratar as lutas políticas de quase todo o mundo e a ameaça que a direita, apoiada por qualquer forma de religião, apresenta à democracia, já bastante fragilizada.