Embora se aproxime de um terreno de thriller político similar àquele delineado por Oliver Stone de “JFK” (1991) a “Nixon” (1995), unindo a estrutura da cinebiografia com ensaio geopolítico, “Golda” acomoda-se na carapaça enferrujada do thriller moral, sem ousar um passo na esfera da forma. Tem um guião de extrema riqueza histórica e com coragem para se abrir às angústias do povo de Israel sem medo de ser retórico. Porém, a força da sua dramaturgia é limitada plasticamente numa montagem avessa a invenções. Há tensão, há afeto, há palestras de Ciências Sociais e há a diva Helen Mirren em ebulição. Tudo está lá, só que preso num invólucro conservador.

Num ano que gerou a joia “Oppenheimer“, que está depositada na mesma esfera temática, o biopic, “Golda” desperdiça uma chance de radicalizar um debate sobre diáspora e sobre a luta de um povo por espaço e identidade. O desperdício se faz notar com mais dó quando se analisa o currículo do realizador, Guy Nattiv, em especial, “Skin” (2018).

Oferecendo bem menos do que poderia, Nattiv dá ao cinema um fast food saboroso, mas pouco nutritivo que se concentra nas horas mais tensas da ação da primeira-ministra de Israel, Golda Meier (1898-1978), durante a Guerra do Yom Kippur, de 6 a 25 de outubro de 1973, sob a pressão do mundo árabe. Apoiado no carisma de Mirren, o guião de Nicholas Martin parece um tabuleiro de xadrez centrado nas jogadas da estadista em busca da salvação das suas tropas. Há um toque do bélico “Patton” (1970) na linha estratégica, com alguns arejamentos no empenho em mostrar o lado mais frágil da protagonista no trato com a sua assistente (a ótima Camille Cottin) e com o então secretária dos EUA de então, Henry Kissinger, vivido por um luminoso Liev Schreiber.

O excesso de verborragia tira o viço do jogo que se estrutura entre as personagens. Também incomoda a insistência do filme em tratar de modo épico cada decisão de Golda, o que abre um eixo anti-heroico de azedo maniqueísmo. Ainda assim, o empenho de Mirren sustenta as fragilidades que Nattiv não regula.

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Rodrigo Fonseca
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