Desde “O Ébrio” (1946), com significativo destaque para “2 Filhos de Francisco” (2005), o namoro do cinema brasileiro com um tipo de melodrama menos reiterativo (e pedestre) do que o da telenovela se aproxima do universo musical. Inclua aí desde adaptações de letras de canções, como “Abismo Prateado” (2011), de Karim Aïnouz (inspirado por “Olhos nos Olhos“, de Chico Buarque) como épicos biográficos (o chamado biopic) como “Pixinguinha, Um Homem Carinhoso” (2021), de Denise Saraceni. Numa média histórica, esse exercício do formato tem essência folhetinesca de excessos, carregado de sacarose na forma de apresentar idílios ou derrocadas. Só por se desvencilhar desse garrote histórico, sem perder a sua habilidade de comover as plateias, “Nosso Sonho” já se diferencia da massa (internacional) de longas-metragens dos quais se aproxima. Uma experiência prévia com documentários, no posto de produtor, faz com que o seu realizador, Eduardo Albergaria, esterilize os vícios da hipérbole sentimentalóide tão comum ao registo melodramático de modo a criar um espetáculo sóbrio (com a doçura na medida certa), que se pauta pela elegância ao rever a trajetória da dupla de funk melody Claudinho e Buchecha.

Atenta ao engenho do chiaroscuro, numa economia franciscana da cores de temperatura forte, a fotografia de João Atala escuda a perspectiva de Albergaria de rebuscamentos na forma. A banda-sonora de Plínio Profeta, discreta, faz o mesmo.

Atenta a um fenómeno fonográfico sul-americano de tempos pré MP3, “Nosso Sonho” faz uma cartografia da cultura musical das periferias do Rio de Janeiro dos anos 1990 a partir das primeiras experiências de Claudio Rodrigues de Mattos (1975-2002) e Claucirlei Jovêncio de Sousa (o Buchecha) pelos palcos dos bailes funk do Rio. A atuação carismática de Lucas Penteado como Claudinho ergue um porto seguro sobre o qual Juan Paiva pode zarpar para o oceano de mágoas de Buchecha. Ele é a voz que narra o filme. É a partir da mirada dele, na lente sofrida do desdém paterno, que o guião se estrutura, sem cair em armadilhas óbvias de manipulação lacrimosa. O pai que serve de Salieri ao Mozart do “Só Love! Só Love!” (hit do duo) é esculpido na pedra da apereza por Nando Cunha, mas sem trombar com caricaturas do maniqueísmo.

Realizador do suave “Happy Hour” (2018), Albergaria se mantém autoral na leveza, gravitando por uma geografia sentimental dura sem tropeçar nos declives. A opção pela brandura atenua os cacoetes das cinebigrafias musicais mais corriqueiras.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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