Depois de nos levar em “A Camareira” à vida rotineira de uma empregada num não-lugar ocupado por hóspedes anónimos e desumanizados, a mexicana Lila Avilés viaja agora em sentido inverso na sua segunda longa-metragem, “Totem”, um objeto sagaz que nos leva até a uma família marcada pela energia dos vivos e o peso dos mortos e moribundos.

Contando, quase na sua totalidade, a história de uma família afectada pelo doença cancerígena de Toniatuh (Mateo García Elizondo), sob o ponto de vista da sua pequena filha de sete anos, Sol (recém-chegada Naíma Sentíes), Lila Avilés entrega ao espectador, num único espaço (uma casa de família), um objeto minado pelos afectos, mesmo que o gelo de uma enfermidade que já tinha deixado a sua marca na família comande toda a atmosfera. 

E é na organização da festa de aniversário de Toniatuh, o qual – devido ao seu estado débil – pode até ter de faltar, que Lila Avilés coloca o ponto central desta peça que se desenrola durante um único dia e acompanha toda uma rede de laços familiares entregues ao caos emocional de ter de lidar com a mortalidade, mas proteger – principalmente – Sol de tudo isso. E essa proteção, por vezes desajeitada, mas sempre adocicada, vai de conversas e interações discretas dos adultos à pequena, a visitas de xamãs prontas a limpar as más energias que a casa e as pessoas carregam.

Tecnicamente elegante e bem ritmado, mesmo que no mesmo dia exista uma viagem por entre diversos estados e sensações, da alegria à tristeza, “Totem” revela uma enorme maturidade da sua cineasta, apenas igualada pela excelência das interpretações que vemos em cena. E nelas há que destacar Naíma Sentíes e Mateo García Elizondo, enquanto os secundários – como a mãe (Iazua Larios) e a tia de Sol (Marisol Gasé), além do o patriarca da família (Alberto Amador) e o bonsai que trata com afeto – dão particular cor a um filme onde o elemento unificador é o amor que todos sentem uns pelos outros.

No final, Lila Avilés exibe na Berlinale um dos melhores filmes da sua competição, mostrando que é uma cineasta com uma enorme inteligência emocional na transposição do real e quotidiano para as telas.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
totem-retrato-de-familiaUm objeto sagaz que nos leva até a uma família marcada pela energia dos vivos e o peso dos mortos e moribundos.