Não tenho cura para a velhice”, diz Mike Milo, a personagem interpretada por Clint Eastwood, a meio deste seu “Cry Macho”, a mais recente longa-metragem do nonagenário que, curiosamente ou não, partilha várias semelhanças com “Missão Inesperada” de Robert Lorenz, realizador que passou grande parte da sua vida e carreira a produzir e a assistir na direção Eastwood, notavelmente em “Mystic River”, “Gran Torino” e “Sniper Americano”.

Como seria de esperar, a velhice, a forma como se lida (e se adapta) a ela e a transferência de sabedoria entre gerações regressam em força nesta adaptação ao cinema do livro de 1975 de N. Richard Nash, e sempre com todas as marcas de Eastwood, onde impera uma enorme simplicidade das palavras, das emoções, do humor e o uso de um reduzido aparato cinematográfico.

E se da velhice não se escapa, do amor também não, e nunca é tarde para tal (“As Pontes de Madison County” vem à cabeça). Mais uma vez em jeito road trip, desta vez sem drogas na bagageira (como em “Correio de Droga“), Eastwood tem novamente o sentido de “missão” que o caracteriza, partindo do Texas para o México para encontrar Rafa (Eduardo Minett), o filho de um amigo(Dwight Yoakam). 

Nessa viagem, onde não falta a irredutibilidade inicial do miúdo em seguir para os EUA e a intransigência da sua mãe nessa mudança, uma estranha amizade vai crescer entre o cowboy, antiga estrela dos rodeos, e o miúdo, o qual ganha a sua vida através de lutas de galos e carrega consigo, durante todo percurso, o seu “campeão”: um galo chamado “Macho”.

E se em “Mystic River” Eastwood “lavou” os pecados do seu Dirty Harry e em “Gran Torino” deu-lhe a “reforma”, aqui ele desconstrói o termo “macho” que sempre o caracterizou na atuação, como que olhando para trás – com suficiente distância – com um tom crítico e reflexivo sobre o passar dos tempos e a importância desproporcional que se dá a certas coisas, como à “coragem”, que isolada de outros elementos vale pouco ou quase nada, como ele o diz a certo ponto.

No final, Eastwood mostra que está aqui para as “curvas” que a vida permitir e cada vez mais descomplicado, ou seja, totalmente o contrário do que o cinema atual proclama e o espectador moderno exige.

Sim, este é um filme tremendamente antiquado, onde a simplicidade com que se resolvem as situações certamente gerará desconfiança. Mas nisso está também o seu singelo charme e graça.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
cry-macho-clint-eastwood-regressa-sem-a-cura-para-a-velhiceUm filme tremendamente antiquado, onde a simplicidade com que resolvem as situações certamente gerará desconfiança. Mas nisso está também o charme do filme, de um ator e de um realizador nonagenário