Filmes como “Juno”, “17 Raparigas“, “Keeper” lançaram no novo milénio olhares cuidados sobre a maternidade na adolescência, abordagens raras a que se junta agora “Dark Heart of The Forest”, o qual teve a sua estreia mundial no BRIFF (Festival de Bruxelas), numa sala UGC bem composta, e agora chegou ao Festival do Cairo, inserido na Semana dos Realizadores.
No centro estão Nikolaï (Quito Rayon Richter) e Camille (Elsa Houben), dois jovens socialmente perdidos e que carregam traumas em busca do amor, que vão iniciar um relacionamento peculiar onde o objetivo é formar uma família, apenas possível se escaparem para o coração de uma floresta e aí permanecerem longe dos olhares e decisões alheias.
Sempre construído com códigos do suspense inflamados por um drama pessoal e social, Serge Mirzabekiantz constrói uma obra esquartejada em três tomos, dois dos quais entregues à perspetiva de cada um dos jovens sobre a situação. Nikolai carrega em si o fardo de ter sido abandonado na floresta e desconhecer completamente quem são os pais. Já Camille está entregue a uma família disfuncional e a sua vida é controlada institucionalmente, tendo sido obrigada a abortar após engravidar de um homem que descobrimos mais tarde ser velho.
Nos dois vai nascer uma espécie de pacto que contorna a palavra amor, mas apresenta uma boa variante do velho conceito de alma gémea, já que esta circula em torno de um objetivo longe da paixão assolapada: ter uma família.
Mirzabekiantz tem a fortuna de ter dois jovens atores em boa forma na maioria do tempo que se entranham num drama escrito e visualmente expressado num constante ambiente de mistério de uma floresta com histórias omissas por contar. No final, ele produz assim um filme delicado, tenso e imprevisível, com coração e cabeça bem balanceados ao sabor de um espírito jovem por decifrar.




















