Cannes prenunciou de que havia de errado no reino do heroísmo, em 2010, quando escolheu um filme ação (!) de Ken Loach, o thriller “Route Irish”, para integrar a disputa pela Palma de Ouro num ano onde o cobiçado prémio foi confiado a uma fábula (o “Tio Boonmee” de Apichatpong Weerasethakul).
A personagem principal de Loach, ali, era um mercenário às voltas com a descoberta de um esquema corrupto do seu governo, a partir do qual soldados da fortuna eram abandonados à própria sorte quando envolvidos em missões governamentais de teor ético reprovável – aliás, mais reprovável do que qualquer guerra é.
O mesmo assunto explorado pelo realizador de “Eu, Daniel Blake” (2016) foi tratado naquele ano por “A-Team”, de Joe Carnaham, e por “The Expendables”, em português “Os Mercenários”, tomo da franquia produzida por Sylvester Stallone. Ninguém em Hollywood, simbolicamente, parece entender mais do abandono de soldados (ou, no mínimo, saber representar melhor tal tema) do que a estrela de Rambo, uma vez que o “First Blood” original, de 1982, também versa sobre a descartabilidade dos guerreiros.
Passados 11 anos, Stallone volta ao tema, mas sob uma couraça CGI de tubarão em “The Suicide Squad”, um espetáculo narrativo de adrenalina e bom humor – sanguinolento e politicamente incorrectíssimo – , que esbanja domínio nas cartilhas de todos os géneros que abrange. Mas o filme que leva James Gunn à DC – e, a partir dela, à HBO Max – tem um viés simbólico mais refinado do que os de “Os Guardiões da Galáxia” (2014 – 2017) que lhe deu fama, numa conexão direta com o assombro denunciado por Loach lá no início da década passada. Este esquadrão reflete a transformação dos supostos defensores da paz em gente dispensável. E reflete uma característica cada vez mais em voga nos filmes baseados em BDs, veja-se “Joker” (Leão de Ouro de 2019): o fascínio pelo Mal e a escolha de vilões contra vilões.

Em 2016, quando “Batman Vs. Superman” estreou, também via DC, vimos dois heróis icónicos a enfrentar-se, numa atualização para o século XXI da BD “Cavaleiro das Trevas” (1986), de Frank Miller, indicando que a convenção histórica do Bem contra o Mal não era mais suficiente para aplacar a sede de dramaturgia de um momento da História quando, cercado de crises, as referências éticas de coragem, de temperança e de altruísmo desapareceram da ordem do dia.
Não por acaso, naquele mesmo ano, “Capitão América – Guerra Civil”, com vigilantes outrora devotados a salvar os fracos e os oprimidos a lutarem entre si. No Coliseu da sociedade do ódio que nos tornamos, herói, com H, é aquele que pára de pé, na arena. A confirmação disso veio com o fenómeno de bilheteira de David Ayer à frente de “Esquadrão Suicida”. Mesmo tendo sido trucidada pela crítica e rejeitada por parte do público, a produção de 175 milhões dólares faturou 746 milhões de dólares e fez a Harley Quinn de Margot Robbie transforma-se num objeto de culto. E fê-lo apostando na ideia de que existem “serviços” que não são adequados aos super-heróis, mas, sim, aos vilões, pois estes são descartáveis.
Cinco anos depois, Gunn assume a marca e retoma esse indício estatístico político: se existem trabalhos que a opinião pública renega, eles devem ser confiados aos dejetos da sociedade. A diferença dramatúrgica central no uso dessa discussão no Esquadrão de Ayer e no de Gunn é a humanização. Isto sem contar o abismo formal entre as duas fitas, até mesmo na construção das sequências de luta, de trocas de tiros e de perseguição, que, em Gunn, atingem um grau de excelência que nenhum outro filme de 2021 – só o subestimado “Snake Eyes”, de Robert Schwentke – arranhou.
Mas a diferença nevrálgica entre eles está no modo dos dois cineasta – ambos formados pela cultura pop – representarem dilemas existenciais através de locais de histérica brutalidade. No filme de Ayer havia caricaturas; no de Gunn há pessoas. Ainda que a pessoa em questão seja um peixe, caso do Tubarão-Rei, a figura que Stallone encarna só com a sua voz gutural, balbuciando idiotices, numa autocrítica e numa autoparódia saborosa, brincando com a sua tão achincalhada dicção, prejudicada por um problema em seus nervos faciais. E há um simbolismo extra de estar ali “Rambo”, numa trama que lembra a de os “Mercenários”. Há uma povoação pobre e periférica explorada por militares sedentos de conquista. A arena geográfica aqui chama-se Corto Maltese, uma referência ao país fictício criado por Frank Miller – e depois citado em “Batman”, de Tim Burton, de 1989 – em referência ao marinheiro cigano criado nas BDs de Hugo Pratt.

Embora o povo de lá saiba lutar sozinho, liderados por uma militante vivida por Alice Braga, eles não dão conta dos exércitos inimigos e, ainda menos do monstro em forma de estrela marinha (neste caso vindo do espaço, e chamada Starro). Só uma equipa com poderes ou com armas letais pode ajuda-los. Eis que o Esquadrão Suicida é acionado, mas não por pena deles ou por um gesto altruísta, mas, sim, pelo facto de a criatura significar um verdadeiro perigo para o mundo. Assim, este Esquadrão oferece à Terra não o que é bom, mas o que é necessário… a alguns….
Criado em 1987, nas páginas da banda desenhada “Lendas” (“Legends”) nº 3, a partir de uma premissa dos anos 1950, de Robert Kanigher e Ross Andru, retrabalhada na década de 1980 por Len Wein, John Byrne e John Ostrander, o Esquadrão Suicida foi uma centelha de incorreção no seio das BDs da DC Comics, uma casa sempre atenta a transgressões. Veja-se “Watchmen”, de Alan Moore, e “Sandman”, de Neil Gaiman. Uma equipa de desvalidos condenados reunia-se por uma agente cheia de traumas raciais, Amanda Waller, a fim de formar uma força capaz de enfrentar os vilões que saiam dos limites, inimigos do Pentágono e heróis descontrolados. Muitas personagens passaram pelas suas fileiras, entre participações especiais e presenças vitalícias, com destaque para o ladrão Capitão Boomerang (Jai Courtney), de regresso aqui, assim como Rick Flagg, o “xerife”, encarnado por Joel Kinnaman. Numa reencarnação contemporânea, mais pós-moderna, novos integrantes surgiram, como a psicótica raposa que Harley Quinn, igualmente valorizada no novo filme, tal qual se via no filme de Ayer. Destaques do filme anterior desapareceram, como o Deadshot, de Will Smith, e entraram Bloodsport, um assassino capaz de transformar tudo em arma, encarnado por um Idris Elba cheio de carisma e talento; a domadora de ratos Ratcatcher 2 (Daniel Melchior, impecável); e um patriota obsessivo capaz de matar em nome da paz, o Pacificador (Peacemaker), papel que rende a John Cena os holofotes, elogios e um mar de fãs.
Num esforço de resposta ao sucesso de “Guardiões da Galáxia” (2014), da Marvel, no qual um supergrupo classe B atingiu a fama, tornando-se um filme de grande sucesso, a Warner Bros. adotou o Esquadrão como sendo a sua munição mais abusada. E investiu num filme mais negro e irónico, com heróis sem moral. O problema é que surgiu uma pedra no meio do caminho: “Deadpool” (2016), uma comédia genial, de sucesso comercial para além de qualquer expectativa, tendo um mascarado ligado (indiretamente) aos X-Men como protagonista. A questão é que “Deadpool” nasceu para ser sarcasmo, sem nunca se levar a sério.
O “Esquadrão Suicida” de Ayer, não. Ali havia algo de épico. Com medo de perder, várias mudanças foram feitas, concessões foram aplicadas, o que arranhou a reputação da longa-metragem sob o olhar da crítica e dos fãs. Porém, mesmo assim, ele entrou no gosto popular. E revisto hoje, à luz do tempo, esbanja belezas estéticas que, antes, não eram reconhecíveis, a começarpela fotografia do russo Roman Vasyanov. Mas essas belezas, poucas, mas vivas, potencializam-se nas mãos de Gunn, um autor na sua maneira de transformar a narrativa numa imparável jukebox, com uma canção popular atrás de outra.
O que mais conta é que, no meio desse clima de videojogo o cineasta consegue dar tridimensionalidade a cada personagem, extraindo mesmo de intérpretes talhados pela canastrice, como Cena, uma vividez notável. E o ponto central histórico do filme, a ideia de que o abandono estatal sugere um descaso do Poder para com a ideia do heroísmo, renova-se aqui, voltando ainda mais irónica.
Isso ocorre graças a Viola Davis, impecável, como Amanda Waller. Atriz dos mais fartos recursos dramáticos, ela alcança com facilidade o perfil de Dirty Harry da sua personagem e dá legitimidade ao esforço de empoderamento feminino que a DC sempre buscou nas BDs e vem tentando no grande ecrã, pelo menos desde a memorável Catwoman de Michelle Pfeiffer em “Batman Regressa” (1992). É Waller quem reúne uma equipa de criminosos, tentando controla-los. Mas o controle dela, aqui, tem um ponto de tolerância.
“Esquadrão Suicida” é, desde já, o “filme pipoca” mais divertido (e relevante) do ano.



















