Inspirada pelo atual contexto que tanto mudou as vidas de todos nós, a rentrée da Cinemateca tem vindo a celebrar os reencontros e as nossas relações comunitárias com um ciclo adequadamente intitulado “E a Vida Continua”. Sob um calendário diferente do habitual adaptado às circunstâncias, a programação deste mês não retoma os ciclos que foram interrompidos em março, movendo-se antes por dois eixos temáticos que se interligam.
Por um lado, está a ser exibido um grupo de filmes atravessados pela própria ideia do regresso, ou do reencontro, e também da relação entre o individual e o coletivo, em particular de tudo o que constrói e mantém uma comunidade ou um sentido de comunidade. Por outro, através da evocação de um punhado de estrelas marcantes da galáxia do cinema, para os quais se perfaz este ano o centenário de nascimento – Gene Tierney, Montgomery Clift, Maureen O’Hara, Walter Matthau e Alberto Sordi –, tem-se feito uma viagem por um período alargado do cinema americano e europeu, percorrendo as épocas clássica e pós-clássica.
Estas são as nossas sugestões para a última semana de sessões em julho:
How Green Was My Valley (O Vale Era Verde, 1941) – 27 de julho, 22h00, Esplanada. A história é a de uma família de mineiros do País de Gales, evocada por alguém que recorda a sua infância – da nostalgia dos tempos da inocência à amargura da separação dos vários membros da família, quando a crise económica se abate sobre a região. Algumas das mais belas cenas do cinema de John Ford encontram-se neste filme: o casamento da filha (Maureen O’Hara), a greve dos mineiros e o conflito com o pai.
La Vie de Bohéme (1992) – 28 de julho, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Motivos clássicos não faltam no cinema de Aki Kaurismäki, normalmente revistos à luz de um qualquer twist mais ou menos irónico. Assim acontece nesta obra, que retoma o texto de Henri Murger que servira, entre outros, para uma célebre ópera de Puccini, contando uma história contemporânea que junta artistas na miséria e imigrantes sem documentos em Paris. Uma belíssima demonstração do idealismo kaurismakiano, sempre encontrado entre a dureza da realidade e a fantasia romântica que se lhe vem sobrepor.
Laura (1944) – 28 de julho, 22h00, Esplanada. Nesta obra-prima de Otto Preminger, clássico do film noir e filme carismático de Gene Tierney, Laura, a mulher “que vem de entre os mortos”, surge como imagem de um sonho. Ela é desejada por uma singular personagem, um sibarita, escritor e cronista de rádio, que deu a Clifton Webb o seu papel mais famoso. E como tantos filmes da época, Laura contém diversos elementos ligados à psicanálise, então em voga em Hollywood.

Una Vita Difficile (Uma Vida Difícil, 1961) – 30 de julho, 19h00, Sala M Félix Ribeiro. Uma das grandes obras-primas de Dino Risi, e um papel que por si só atestaria a genialidade de Alberto Sordi. No estilo agridoce, tragicómico, característico da “comédia à italiana”, Una Vita Difficile é um percurso pela história italiana do fim da Segunda Guerra à entrada nos anos sessenta, expondo as contradições dolorosas do “milagre económico”, centrado na personagem de Sordi, um intelectual comunista.
The Lusty Men (Idílio Selvagem, 1953) – 31 de julho, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. The Lusty Men é uma espécie de western moderno, cuja ação é situada na época da rodagem. Nele, Robert Mitchum é uma ex-vedeta de rodeos, que inicia um cowboy nesta atividade. Atraído pela mulher deste, morre ao participar num último rodeo. Um dos mais belos filmes de Nicholas Ray e um dos grandes papéis de Mitchum, na pele de um homem que tenta voltar ao passado, mas fracassa, pois “you can’t go home again”.
E a Vida Continua (1992) – 31 de julho, 22h00, Esplanada. Em 1990, no Irão devastado por um tremor de terra, um realizador de cinema e o filho fazem uma viagem de carro no interior da região, à procura dos miúdos de outro filme de Kiarostami, Onde Fica a Casa do Meu Amigo?. Uma viagem através das ruínas e da destruição, onde apesar de tudo a vida continua…
Esta rubrica voltará em setembro, depois das habituais férias da Cinemateca durante o mês de agosto.

