Peter Jackson já havia cometido este erro antes: pôr a tecnologia à frente do cinema.
O caso foi “As Aventuras de Tintin (2011)”, uma animação em 3D Motion Capture que toda a gente resistiu a ver. A realidade é que o filme, assinado por Steven Spielberg, era narrativamente interessante e qualquer fã de Hergé certamente gostou. O problema foi que a técnica de animação usada pode ser uma proeza tecnológica absoluta mas drena de toda a emoção a interação das personagens. O público não queria ver um Tintin assim, mas Jackson e Spielberg pareciam apenas interessados em recuperar esse lado se fosse desta forma e infelizmente tivemos em 2011 um “misfire” terrível.
“O Hobbit” não é uma tragédia tão grande – mas é quase. A “brincadeira” de Peter Jackson, rodar o filme ao dobro da velocidade (48fps) e projetá-lo assim em alguns cinemas (noutros está em a velocidade normal), foi um enorme erro. A crítica atacou duramente o lado técnico do filme, especialmente quando projetado nas 48fps. A realidade é que o universo de Tolkien e até o legado da trilogia anterior deveria ter proibido Jackson de ter usado “The Hobbit” como cobaia para este erro.
O cinema é feito a 24 ou a 25 frames por segundo, a televisão pode ser à mesma velocidade ou a 29.7fps. Frequentemente a velocidade 60fps ou superior é usada para “slow motion” extremos, como em “Dredd 3D (2012)”. Porque a verdade é que a forma como percepcionamos as imagens fixas em movimento (que é o cinema) está enquadrada nesta linguagem mental.
O excesso de informação de vermos 48 frames por segundo em vez de 24 permite que o 3D de “The Hobbit” seja extremamente apurado e limpo, sem dúvida. Mas trai o sentido cinematográfico do filme. É que existe um registo com animações a 40 e 50 fps: os videojogos. E a realidade é que frequentemente a imagem do filme parece isso mesmo, um videojogo. Ou um mero filme do Syfy. Tudo, menos cinema na sua grandiosidade.
Jackson haveria de saber isso, presumo. Talvez o seu ego Mega tecnológico falasse mais alto, mas Jackson deveria ter deixado a experiência para um cobaia menos amada.
“O filme ficou tão hiper-realista que vemos tudo o que nele é falso”.
Peter Traves, Rolling Stone
“Não parece um filme do Senhor dos Aneis – mas sim um tributo barato feito para a internet”
Robbie Collin, The Telegraph
“O look cinematográfico da saga original era melhor”
Peter Bradshaw, The Guardian
“Parece um videojogo… o filme foi estragado por um monstro tecnológico.”
Richard Lawson, The Atlantic Wire

