(Texto com spoilers – Se não viu o filme, não leia)
O terceiro e último filme de Batman segundo Christopher Nolan chegou a Portugal finalmente esta semana, depois de muito se ter falado dele, quer pela positiva (crítica muito positivas e um box office impressionante), quer por motivos verdadeiramente tristes como a tragédia de Aurora e todos os eventos subsequentes.
Algo que muito se comentou foi o terrível ataque à sala de cinema por parte de um psicopata imbecil (descrição mais precisa, não há), uma invasão de um lugar de escapismo como um cinema por parte dos horrores do mundo exterior. A analogia seria justa em muitos casos, mas não o é em ‘O Cavaleiro das Trevas Renasce‘. Nunca o mundo exterior assombrou tanto um filme de entretenimento como neste novo filme, que para além de ser uma aventura emocionante é também um espelho, talvez demasiado amplificado, das ansiedades da sociedade moderna.
Em «Os Vingadores», Loki lidera uma invasão extraterrestre. Em ‘O Fantástico Homem Aranha‘, Lizzard quer converter Nova Iorque numa cidade de lagartos por motivos puramente darwinianos. Mas Bane e a Liga de Sombras têm uma agenda bem diferente. Durante meses a fio mantêm Gotham City debaixo um estado de sítio, onde as pessoas vivem escondidas em casa e no subsolo, muitos entregues à fome, enquanto ele promete que caso alguém questione os seus militares, uma bomba enorme mataria toda a gente.
A justiça que Bane promete a Gotham é baseada em grandes pressupostos sociais. Ele promete igualdade de classes, a vingança dos pobres contra os ricos e o fim da criminalidade (como a Liga de Sombras já promete em ‘Batman: O Início‘). Para frisar isto, Bane enforca traidores numa ponte à entrada da cidade e faz julgamentos sumários num tribunal onde o veredicto é sempre a morte. E a agenda de Bane é uma mentira: os meses em que Gotham é mantida numa espécie de resgate social apenas terão como fim a explosão e a morte de todos, pois Bane é um terrorista suicida.
Os filmes de super-heróis nunca viram uma aventura tão negra, tão negativa. Bane é um eco de uma América e de um mundo aterrorizados pela crise económica e pelo terrorismo. No seu primeiro ataque, ele invade Wall Street para fazer com que Bruce Wayne / Batman perca toda a sua riqueza financeira. Quando toma conta de cidade, o seu plano faz com que o governo central dos EUA não intervenha e deixe a população de Gotham a viver num estado militarizado que ele criou.
E nunca um herói teve de sofrer tanto quanto Batman para derrotar este inimigo final, que -mais do que uma mera vitória num duelo – busca humilhar e ferir emocionalmente toda uma sociedade. Mas não com planos aparatosos como Joker de Heath Ledger, mas sim com armas, terror e violência. «O Cavaleiro das Trevas Renasce» foi classificado PG-13 nos EUA (equivalente a maiores de 12) mas fazer os cortes nos sítios certos não significa que este não seja um filme extremamente violento para o registo em que se apresenta.
Na prisão distante onde Bruce Wayne fica preso, é contada uma história da infância de Bane de contornos muito fortes – culminando com uma multidão a violentar uma mulher. O ataque ao campo de futebol americano que se vê no trailer é aterrorizante de uma forma que nos pós-11 de Setembro não se costuma ver num filme de grande entretenimento.
A coisa mais fora de vulgar de ‘O Cavaleiro das Sombras Renasce‘ é ser passado ao longo de vários meses. A maioria dos filmes de super-heroís são rápidos e impulsivos, com planos explosivos a serem combatidos numa corrida. Nos meses gelados em que Gotham é governada por Bane, assistimos à humilhação humana e social, o suficiente para que no final o melhor plano que Batman tem é apelar a que os polícias sobreviventes caminhem desarmados contra metralhadoras num último ataque kamikaze.
Passado bem no limite da sobrevivência, «O Cavaleiro das Trevas Renasce» é certamente o filme de grande público e de entretenimento mais escuro, violento e aterrorizante que um estúdio alguma vez fez – com um investimento de mais de 200 milhões de dólares. Em anos de conjuntura tão difíceis como 2012, até Batman lida com a crise económica, terroristas suicidas e com a privação de liberdade. A noite nunca foi tão escura.

