Impregnado pelo aroma da ousadia, ao mergulhar na seara escatológica da disenteria e da obstipação como metáforas do horror, Privadas de Suas Vidas chega à América do Sul, seu berço, após uma ruidosa passagem por Festival Internacional de Cinema de Roterdão, via Argentina, no 27.º BAFICI. Depois deste thriller de terror de veia cómica inflamada, a expressão “um filme de merda” deixa de simbolizar rejeição, uma vez que um dos seus objectos de análise são as fezes de uma grande metrópole — neste caso, a maior do Brasil: São Paulo. A questão é que a premissa filmada por dois realizadores de assinaturas autorais fortíssimas (e distintas) — Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre — confere ao que poderia ser apenas entretenimento uma dimensão existencialista — e uma heroína.
A protagonista é Malu, a quem a vida tem vindo a retirar a alegria a conta-gotas. Ganha a vida a promover eventos e festas, enfrentando clientes truculentos. Para agravar a situação, desenvolveu uma aversão a latrinas ao longo dos anos em que sofreu — e ainda sofre — o luto pela perda de um filho, morto num acidente com loiça de casa de banho.
Não há incontinências no percurso da personagem interpretada por Martha Nowill, apenas represas, inclusive existenciais. É sobre elas que os espectros trocistas — e malévolos — da narrativa vão atuar.
“Fizemos a Martha ver Safe (1995), de Todd Haynes, e The Entity (1982), para construir uma personagem que poderia ser uma das mulheres dos melodramas de Pedro Almodóvar. Ela leva a graça a sério”, afirma Gurcius, realizador de Pazúcus: A Ilha do Desarrego (2017), ao C7nema.
Em ligação com ele, Vinagre — premiado na Festival Internacional de Cinema de Berlim por Três Tigres Tristes (2022) — acrescenta: “A era da discórdia em que vivemos torna a comunicação difícil.”
Conhecido internacionalmente como Bowels of Hell, a longa-metragem de Vinagre e Gurcius nasce no país das Américas que mais investe em porn scat (pornografia com fezes, urina e vómito), ao ponto de ter uma musa da escatologia, a atriz Saori Kido.
“A Saori quase entrou no filme, numa participação como vendedora de gelados, mas já havia tantos elementos… tanta exigência da nossa parte para a produção… que preferimos deixar para outra ocasião”, confessa Vinagre, que apresentará ainda A Paixão Segundo G.H.B., filmado a quatro mãos com Vinicius Couto e centrado nas vivências do desejo.
Em Privadas de Suas Vidas, Martha Nowill assume um registo de scream queen no papel de Malu. Paralelamente aos inúmeros obstáculos profissionais, é mãe (praticamente solteira, uma vez que o pai se ausentou) de Gênesis (artista que assina apenas como Benjamín), adolescente que se identifica como pessoa não binária e exige respeito. Na luta de Malu para manter o negócio lucrativo, lidar com a identidade de Gênesis e aliviar o intestino (metáfora da alma), uma manifestação sobrenatural maligna, alojada nas sanitas de um prédio em São Paulo, vai lançar o caos sobre a sagrada família brasileira. A realização não se deixa deter diante de nenhum pudor moral.
“Fizemos um estudo de filmes de terror em espaços confinados, como Shivers (1975), de David Cronenberg, além de trabalhos de Almodóvar e de Věra Chytilová, mas sempre a pensar em São Paulo e na sua realidade”, refere Gurcius, que conheceu o seu parceiro de realização há uma década.
Neste conto intestinal gore — a meio caminho entre John Waters e Carrie (1976), de Brian De Palma —, a fotografia de Daniel Venosa revela uma notável destreza, plano a plano. No elenco, Otávio Müller magnetiza o público, com um registo que evoca Paul Giamatti, ao interpretar uma personagem zeladora excêntrica.
O BAFICI decorre até ao dia 26 de abril.

