“Precisamos proteger a nossa alma”, alerta Herzog

Werner Herzog chegou sob uma espessa chuva a San Sebastián para uma das grandes celebrações da 74.ª edição do festival internacional mais famoso de Espanha: a entrega do Prémio Donostia, a mais alta distinção honorária do certame a um cineasta cuja carreira atravessa décadas. No caso dele, são 60 anos de cinema, com uma obra anfíbia de ficção e documentário, com uma animação já em curso. Aos 84 anos, o realizador, professor e ator será homenageado esta noite no Kursaal, depois da passagem de Bucking Fastard pelo Teatro Victoria Eugenia.

“Esta é uma ficção que nasce do desejo de trabalhar com duas irmãs, anos depois de eu ter conhecido uma história singular sobre gémeas. Se me pergunta sobre como os meus documentários influenciam isso, digo-lhe que as minhas longas documentais são ficções disfarçadas”, disse Herzog ao C7nema, antes de fazer um elogio ao Brasil, onde filmou na década de 1980. “Não vou lá há anos, mas sinto falta de acordar embalado pelo canto dos pássaros, como fazia em solo brasileiro.”

Num bom humor que contagiou o Kursaal, o cineasta germânico, nascido em Munique a 5 de setembro de 1942, chega ao País Basco poucos dias depois de ter apresentado o seu novo filme em competição pelo Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em San Sebastián, a expectativa em torno da sua presença é evidente: uma fila de fãs forma-se em volta do centro nervoso do evento, em busca de uma foto de Herzog nesta sua passagem pela cidade, que junta a homenagem à carreira e o regresso do realizador à ficção. Há tempos, dedica-se mais a documentar crises ambientais e a retratar figuras políticas, como o ex-secretário do Partido Comunista Mikhail Gorbachev.

“Ideias abstratas são inimigas de um cineasta. Eu foco-me no que estou a fazer”, disse Herzog. “A única coisa para que olho em retrospetiva ao ser indicado para o Donostia é a lista de vencedores dos anos passados. É uma seleção de estrelas e cineastas incríveis, o que me deixa honrado.”

A distinção em solo basco acontece apenas um ano depois de Herzog ter recebido o Leão de Ouro honorário do Festival de Veneza, em agosto de 2025. Na ocasião, o realizador foi homenageado pela sua contribuição para o cinema mundial, numa cerimónia em que Francis Ford Coppola lhe entregou o galardão. No momento, tem Bucking Fastard para promover. A corrida por ingressos para as suas projeções em Donostia é das mais concorridas.

“Invisto em elementos poéticos que não encontra em Hollywood”, disse Herzog. “O mundo está sempre a tentar moldar-nos. Somos moldados pela nossa linguagem, pela nossa família. As redes sociais hoje moldam o mundo. Precisamos de proteger as nossas almas. É preciso estar vigilante para nos defendermos dos algoritmos.”

Traduzido em português (no Brasil) como O Vale Imaginário, o enervante Bucking Fastard é dedicado ao realizador David Lynch, que morreu em 2025. À moda do seu homenageado, a longa é calcada na estranheza ao construir um enredo sobre aqueles que vivem à margem e procuram, à sua maneira, um lugar onde possam finalmente pertencer, um pouco como The Straight Story (1999). No regresso do artista que nos deu Aguirre (1972) e Grizzly Man (2005) à ficção, é notável o equilíbrio entre absurdo e naturalismo, de modo que os dois registos coexistem sem nenhum deles dominar por completo a narrativa. No centro estão as gémeas Jean e Joan Holbrooke, interpretadas pelas irmãs Rooney Mara e Kate Mara, duas mulheres que parecem existir como uma só. Pensam, falam, vestem-se e agem em perfeita sintonia, como se partilhassem uma única identidade. A sua inocência quase absoluta provoca, inicialmente, uma sensação de bizarria, até que se percebe o fascínio delas pelo amor. Fascínio que beira o desespero. Ao encantarem-se por um vizinho casado (Orlando Bloom), fazem da rotina dele um inferno.

“Werner é um artista que se recusa a julgar as suas personagens, o que eu admiro”, afirma Bloom, ao lado do cineasta.

O Festival de San Sebastián segue até ao dia 26 de janeiro.

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