Foi bastante discreta, ao contrário das edições anteriores, a presença portuguesa no certame suíço, com quatro produções a marcarem presença em duas secções do certame.
Comecemos por “Timkat” [na imagem acima], em competição nas curtas e médias metragens. Dois anos depois de “Alva”, estreado em Roterdão, o português Ico Costa estreou mundialmente uma exploração em super 8mm da celebração religiosa. Comemorado a 19 de janeiro, que corresponde ao 11º dia de Terr no calendário Ge’ez, “Timkat” celebra o batismo de Jesus no rio Jordão, com a reconstituição do ritual. Porém, depois dos tempos coloniais e da libertação de Itália de Mussolini, o evento transformou-se igualmente numa da independência e liberdade.
Com apenas 13 minutos, o pequeno filme marca novamente a posição de Ico Costa dentro do registo da docuficção, levando-nos agora a Gondar, cidade imperial e antiga capital da Etiópia, mergulhando-nos de forma fragmentada e imersiva num ritual de profunda afirmação identitária, alicerçando no som, nas imagens e nas palavras o contexto para a imensidão de rostos que invadem desalinhadamente o ecrã.

Também nesta secção encontramos “Sortes”, de Mónica Martins Nunes, autora de “Na cinza fica calor” (2016). Quem segue os festivais nacionais na última década, em especial o IndieLisboa, sabe perfeitamente o quão prolífica é a seleção de objetos que invadem os espaços rurais e a interioridade através de retratos humanos e físicos que normalmente focam-se no estado moribundo de um outro país, derivado do êxodo rural e consequente desertificação, humana e física. Resistem uns poucos, normalmente já envelhecidos, juntamente com os seus poemas e tradições, antevendo-se um desaparecimento total de um modo de vida.
Já nas Latitudes do Visions du Réel foi apresentado “No Táxi do Jack”, de Susana Nobre, que passou também discretamente pelo Fórum do Festival de Berlim. Como disse na crítica escrita durante a Berlinale, “‘O Táxi de Jack’ contém certamente uma personagem capaz de inflamar a audiência e levar a autora para um patamar diferente, mas a verdade é que em vez de explosão, o que assistimos é à implosão de um projeto que no seu último terço simplesmente deixa de existir, juntando-se à tradição de curtas-metragens vestidas de longas”. Também aqui podemos falar de extinção, termo tão utilizado nos tempos correntes para o cessar de postos de trabalho. O foco é o sexagenário Joaquim Calçada, que através de um road-movie fechado vai-nos contando a sua vida, de Vila Franca de Xira aos EUA, onde fez vida de taxista, regressando décadas depois para encontrar o país já num regime democrata.
Nota final para uma coprodução portuguesa, a meias com Hungria, Rússia e Bélgica, em mais um exercício com o selo DocNomads (da qual a Lusófona faz parte): “Don’t Hesitate to Come for a Visit, Mom”, de Anna Artemyeva. O filme consiste essencialmente na conversa entre uma filha e uma mãe, separadas fisicamente mas próximas virtualmente, com a progenitora a explicar-lhe porque a pequena ainda não pode ir ter com ela. A maternidade e as relações familiares estão em foco, bem como os procedimentos burocráticos no lidar com imigrantes, havendo em todo o filme um toque terno e reflexivo sobre um mundo cada vez mais global e virtual.

