As ruínas do Réel

(Fotos: Divulgação)

A União Soviética produziu uma série de cidades e espaços que aparentam ser verdadeiros cenários de qualquer filme de ficção científica. Basta relembrar Norilsk, tão criteriosamente refletida e apresentada em “Melting Souls“, um documentário de François-Xavier Destors. 

Agora é a vez de “Ostrov – Lost Island“, de Svetlana Rodina e Laurent Stoop, que nos leva à ilha arenosa de Ostrov, no Mar Cáspio, uma importante base aérea durante a Guerra Fria, famosa pelas atividades piscatórias (principalmente caviar), agora remetida a ruínas físicas e humanas que chegam até nós através de um pescador, Ivan, que representa um dos últimos da sua espécie, preso entre a glória do passado, nacionalismos exacerbados e um presente e futuro incerto já que, no local até a sua atividade, está interdita.

Filme de profundas contradições, onde apesar de nosso pescador viver na miséria e já ter sido detido por pescar ilegalmente continua a acreditar que Putin o salvará, “Ostrov – Lost Island” assenta numa observação quotidiana num local onde as memórias são apenas o que resta para agarrar a própria incerteza em que se vive. 

Das ruínas da URSS passamos para as ruínas do sonho americano em “Dirty Feathers”, do mexicano-americano Carlos Alfonso Corral. Produzido por Roberto Minervini, com quem Corral trabalha desde “Stop The Pounding Heart”, este é um retrato de um sistema falido que sistematicamente lembra que o mundo se divide entre os “vencedores” e “perdedores”, apresentando estes últimos, os marginais ao “sonho”, todos com passados marcados por tragédias, drogas, crime e sucessos interrompidos. E tudo apresentado num preto e branco nítido que se funde com uma criteriosa partitura de sons que nos magnetizam numa cidade de El Paso, bem perto da fronteira com o México. Presente na secção Latitudes.

A lutar contra as ruínas da civilização e o avanço do homem branco na era Bolsonaro e da sua postura neocolonialista temos “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, que já em 2013 mostrava na animação “Rio 2096” um tributo aos caídos em batalha, aos heróis que não têm estátua, mas morreram a lutar contra aqueles que as têm nas praças das nossas cidades. O foco desta obra inserida na Grand Angle do Visions du Réel é o líder tribal e xamã, Davi Kopenawa, que procura proteger as tradições da sua comunidade Yanomami, a qual habita e tenta manter a área intacta à ação dos garimpeiros e evangélicos, que frequentemente tentam invadir e explorar o seu território, situado a norte do Brasil e a sul da Venezuela. 

Observação etnográfica cuidada e livre de pressões, esta é uma viagem ao passado para falar do presente e encarar o futuro, que pode – no pior dos casos- levar ao extermínio da sétima maior etnia indígena brasileira.

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