Canteiro para nódoas políticas e inchaços morais, o É Tudo Verdade também deixa-se inflamar pela poesia, abrindo espaço (cercado de elogios) para um criador de versos que abraçava a precisão como um astrolábio para a navegação pelos mares da literatura: o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Quem fala dele na maior vitrine cinéfila de não ficção da América do Sul é o realização de Bebeto Abrantes, nascido em Laranjeiras, há 69 anos. É dele a direção de “João por Inez”, umas das revelações da competição nacional do festival pilotado por Amir Labaki.
Em 2003, ganhou os aplausos do audiovisual ao lançar “Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto”. Nos anos 1980, o cineasta, formado em Psicologia, injetou a estética cabralina nas veias, encantando-se por versos como:
“Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.”

Em seu novo filme, ao longo de nove emotivos minutos, Abrantes dá voz à escritora e cineasta Inez Cabral retrata o pai, o chamado “poeta da precisão”, para além de sua escrita, dos latidos do seu “Cão Sem Plumas”, dos espectros da sua “Morte e Vida Severina”, da sua carreira política no Itamaraty. É um relato de família, de corações amaciados pela pertença, açucarado por recordações do Recife.
Em 2020, Abrantes dedicou seu tempo a uma série de outros trabalhos, como o projeto “Me Cuidem-Se”, com Cavi Borges, sobre a pandemia, e ao seminário NA REAL_VIRTUAL, gestado em parceria com o crítico Carlos Alberto Mattos.
Na entrevista a seguir, o realizador conta ao C7nema sobre seu trâmite pela métrica cabralina.
De que maneira as tuas expedições prévias por João Cabral de Melo Neto aproximaram-se de Inez e o que existe de mais cabralino no olhar dela?
Desde 2001, quando fiz as filmagens para o meu doc. “Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto”, eu venho me aproximando da Inez Cabral e ganhando uma grande amiga. Já nesse filme, tem uma participação muito instigante, pelo seu jeito extrovertido e sincero de dizer o que pensa. O nome disso é carisma. O facto é que, nos últimos 15 anos, seguindo o conselho do pai, Inez tornou-se uma escritora e lançou dois livros: “A Literatura como Turismo” e “O Que Vem ao Caso”. Neles, ela relata episódios da sua convivência privilegiada, para o bem e para o mal, de filha, com João Cabral de Melo Neto, articulando-os a certos poemas do seu pai. Digo privilegiada porque, através deles, sabemos um pouco mais do quase nada que sabíamos da vida pessoal e privada do João, por conta da sua personalidade recatada e pelo facto de ter vivido fora do país por mais de 40 anos, cumprindo funções diplomáticas. E isso não é pouco, pois a vida pessoal de qualquer artista informa sobre sua obra, e vice-versa.
De que maneira a poética do João Cabral influencia a sua forma de construir a sua poética documental, para além do interesse pela figura dele? Em que ponto Cabral torna-se objeto do seu cinema?
Cabral, a quem leio e releio com frequência, desde 1984, é o meu maior mestre, uma referência cujos os versos atravessam-me diariamente. Sim, amiúde, cito expressões e versos, antes de tudo para mim mesmo… Ilustro: “fazer no extremo, onde o risco começa”. Ao longo de meus filmes, venho tentando praticar essa máxima, que, aliás, confesso, é inalcançável, mas não a perco de vista. Cabral é um construtivista, sabe que qualquer criação é construção de linguagem. Ainda há muita gente que pensa que documentário é registo, espelho da realidade e, ficção, criação. Ledo engano: documentário também é construção de linguagem. João tem um conjunto enorme de poemas sobre pintores e artistas plásticos, escritores, outros poetas e mesmo arquitetos. Neles, antes de os enaltecer, João extrai lições, reflexões estéticas e, até mesmo, princípios de linguagem, como a concisão, o não derramamento lírico, o empenho e a luta pela expressão que qualquer criação requer. Esses são apenas alguns pontos da obra cabralina, que me influenciam e motivam-me na minha produção de documentarista. Tento, segui-los, nem sempre com o sucesso desejado, mas sempre em busca, tendo-os como norte.
Cabral tem mais algum espaço à vista nos seus projetos? Qual? Como? O que mais você está gestando agora?
Sim, tenho uma longa-metragem em vista, intitulado “Meu pai e eu”. Sim, mais uma vez com Inez Cabral. Em 1999, ano do falecimento do poeta, colhi, em seis ou sete conversas, o que muitos consideram o testamento do João. São quatro horas e meia de depoimentos colhidos em sua casa, na Praia do Flamengo. No meu filme “Recife-Sevilha”, uso apenas 25′ desse rico material. Além disso, tenho no acervo da Giros Filmes mais de 40 horas de material gravado em Pernambuco (no Recife, no Agreste, na Zona da Mata e no Sertão) e na Espanha (Sevilha e Barcelona). Vou revisitar esse material, expondo-o a Inez e a alguns convidados, no intuito de tratarmos de certos assuntos que o próprio João dizia que os críticos não costumavam abordar. É o caso do seu humor ácido (presente em “Dois Parlamentos” e mesmo em “Morte e Vida Severina”), do erotismo de alguns poemas (“Seda”, “Imitação da água”, “Jogos Frutais”). E falarei de outro assuntos, como sua relação com Miró e o grupo catalão Dau Al Set, a literatura de cordel, a morte etc. Outro projeto é fazer uma peça-filme com Cavi Borges, a partir do poema “Os Três Mal Amados” (1942), que, surpreendentemente, há quase 80 anos, trata e expõe a afetividade amorosa de três homens. E, para fechar, pretendo lançar em livro as conversas com o João, com sua mais longa entrevista antes do seu falecimento, em 1999.
Como ficaram os planos para o Na Real_Virtual depois das concorridas edições de 2020 desse seminário sobre documentários? Novidades no ar?
Estamos trabalhando o rico acervo das sessões com 28 cineastas fundamentais para o documentário brasileiro contemporâneo, realizadas em 2020. O projeto é fazermos uma webssérie com o material gravado nas partes 1 e 2 do seminário online. E, para o segundo semestre, realizarmos para a edição de 2021, dois novos seminários. A curadoria ainda está em aberto. É o que pretendemos, vamos ver o que acontece de facto.

