Filho de uma mineira (Minas Gerais) e de um piauiense (Piauí) – duas células regionais da brasilidade –, com experiência nos códigos narrativos do audiovisual ao longo de três décadas dedicadas à realização para TV, José Luiz Villamarim vem promovendo uma renovação formal no modo de construir as imagens da teledramaturgia diária no seu país.
Quebrou paradigmas ao inocular um realismo quase documental nas artérias do melodrama, arquitetando cada plano de uma telenovela ou minissérie a partir de um esquadro cinematográfico de excelência. Depois de uma bem-sucedida parceria com Amora Mautner em “Avenida Brasil” (2012), oxigenou olhares cartografando o Brasil profundo em “O Canto da Sereia” (2013), “Amores Roubados” (2014), “O Rebu” (2014), “Justiça” (2016) e “Onde Nascem os Fortes” (2018). O seu trabalho mais recente, “Amor de Mãe”, iniciada em 2019, interrompida em 2020 pela pandemia, e retomada recentemente, inundou as pupilas brasileiras de lágrimas, dando ao texto primoroso de Manuela Dias um lugar de destaque no panteão das novelistas.
O esforço de garantir à representação televisiva do seu povo um maior requinte plástico coincidiu com a incursão de Villamarim pelo cinema. Envolvido agora com o projeto de transpor “A Crônica da Casa Assassinada” (1959), romance epistolar de Lúcio Cardoso (1912-1968), em longa-metragem, ele fez a sua estreia como cineasta há cinco anos, com “Redemoinho”, vencedor do Prémio Especial do Júri no Festival do Rio em 2016. Este domingo, esse seu precioso exercício de cinema vai chegar à streaminguesfera, com acesso a vários países, via MUBI.
Baseado no universo literário do escritor Luiz Ruffato, o autor de “Eles Eram Muito Cavalos” (2001), o drama de Villamarim baseia-se na prosa da pentalogia “Inferno Provisório”, em conexão com “Vol. II – O Mundo Inimigo”, de 2005. A longa-metragem dali derivada conquistou os prémios de Melhor Filme e Melhor Realização na seara dos títulos de ficção do FESTin 2018: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.
Berço de Humberto Mauro (1897-1983), a cidade mineira de Cataguases, arena poética de invenção de uma identidade nacional, voltou a ser palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para o cinema com a assinatura de Villamarim, argumento de George Moura e fotografia por Walter Carvalho. À época da sua estreia, o cineasta Eduardo Escorel, famoso pela sua demolidora coluna “Questões Cinematográficas” na revista “Piauí”, rendeu-se à potência trágica dos relatos de Villamarim, classificando-o como um excelente filme, destacando “a encenação e os planos austeros, mas sempre expressivos, resultantes de contribuições harmoniosas da direção (Villamarim), fotografia e câmara (Walter Carvalho), e direção de arte (Marcos Pedroso)” no seu texto.

Na trama escrita por Moura, dois amigos de infância, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade, melhor ator na Première Brasil 2016) seguiram rumos opostos, mas reencontram-se na véspera do Natal para uma conversa regada a cerveja, salame picado, fel da memória e chorume do rancor. Em paralelo, uma série de mulheres que cruzam a vida de ambas (vividas por Dira Paes, Cássia Kis, Cyria Coentro e Camila Amado) têm as suas rotinas observadas pelas lentes de Villamarim, nesta produção de Vânia Catani.
“Não sei se poderia dizer que a direção do grande parceiro Villamarim molda a minha escrita, mas arrisco pensar que escrever um roteiro sabendo que será dirigido por ele, é saber que os silêncios contidos nas rubricas terão a mesma importância dos diálogos”, diz George Moura ao C7nema. “É como na música: o silêncio é tão importante quanto o acorde. E é da junção deles que nasce a melodia com seu ritmo e harmonia”.
Bruxo da luz na fotografia brasileira, Walter Carvalho também se enternece ao relembrar-se do processo com Villamarim em Cataguases em entrevista ao C7. “A maior relevância do ‘Redemoinho’, nessa coisa que se chama projeto estético, é o rigor. Um rigor que começa no próprio texto. Por ser um filme com poucos personagens, ele nos deu a possibilidade de elaborar um projeto mais rigoroso do ponto de vista dos diálogos, do quadro. Para mim, sobretudo, que sou fotógrafo, deixei de chamar o gesto do enquadramento, no ‘Redemoinho’, e passei a chamar o processo de ‘enquadradar’, por me colocar quadros. Ali, não consistia em olhar o objeto de longe ou de fora e enquadrar, mas, sim, de saber que o objeto te olha. Você não encaixa o objeto, ele se encaixa em você. Isso, do ponto de vista do quadro, é um rigor. Isso está aliado diretamente com uma postura que comecei a desenvolver desde ‘Abril Despedaçado’. Com o Villamarim, pela parceria, consegui aprofundar mais. Tudo gravitando em torno dos personagens do Luiz Ruffato”, diz Carvalho, um dos mais aclamados fotógrafos do Brasil.
,Na conversa a seguir, Villamarim desnuda a parte que lhe cabe nesse latifúndio da invenção chamado “Redemoinho”.
Que Brasil reside nas Gerais de Ruffato e o quanto ele revela sobre a natureza da cordialidade, das paixões e das brutalidades do povo brasileiro?
É o Brasil da luta de classes de pessoas sem acesso a privilégios. Como o Ruffato vem desse lugar e conhecia pessoas como aquelas, tem ali o Brasil mais legítimo, mas que não foge à regra de lugar nenhum, pois o ser humano é o mesmo em qualquer lugar. Gildo, por exemplo, é aquela pessoa ordinária que vive de aparências. É um tipo de pessoa que eu já conheci por Minas e por outros lugares. O que existe de diferencial, além das particularidades da geografia mineira, é o existencialismo que Ruffato carrega.
O quanto aquele universo de “Redemoinho” dialoga com a Minas Gerais da tua infância e juventude? Como foi revisitar o universo mineiro a partir de uma das características mais atribuídas, folcloricamente ao povo do seu estado: o intimismo?
Mineiro é para dentro. Logo, é mais profundo. Profundidade gera grandiosidade. A introspecção mineira, ou seja, essa condição nossa que parece folclórica do intimismo nos leva ao profundo de nós mesmos. É um reflexo das montanhas na geografia de Minas. Um reflexo da força da Igreja sobre a nossa História. É um reflexo de uma certa culpa cristã.
Você redefiniu – e vem redefinindo – os modelos de representação na TV aberta do Brasil. O quanto essa experiência de teledramaturgia pesou na sua imersão no cinema?
No filme, radicalizei experiências que já fazia na TV. Na televisão, sempre trabalhei muito com atores. Ao ler um texto sobre o filme, li que “o ‘Redemoinho é um duelo de atores”. É facto. Acredito na força do plano. Na TV, em geral, contabiliza-se a cena, não plano. Mas, influenciado pela radicalidade do “Redemoinho”, fui fazer “Onde Nascem os Fortes” com uma maior preocupação formal, pensando onde se coloca a câmara, trabalhando a mise-en-scène sempre atendendo ao som. Sou muito ligado à música, à sonoridade. E, como reflexão da condição de mineiro sobre a qual me perguntou, o silêncio é algo que nosso intimismo valoriza muito. O silêncio permite-me escutar o que está ao meu redor. No meu filme, tem um combóio que passa em frente à casa das pessoas. Ninguém mora em frente a uma ferrovia sem sentir o abalo na estrutura física do terreno e o barulho. O barulho do combóio é parte da vida. E poucas pessoas, no cinema brasileiro, usam o som como um elemento narrativo nessa medida estrutural. Isso, lá fora, é um cuidado que um diretor como o Christopher Nolan, de “Dunkirk”, tem de mais legal.
Como é o lugar da força feminina na sua obra, uma vez que Gildo e Luzimar confrontam-se sob uma série de força vetoriais femininas? Aliás, toda a sua obra ao lado de George Moura e Walter Carvalho, na TV, parece ser guiada por mulheres, sobretudo por uma representação da maternidade. Como se dá esse olhar sobre a potência da mulher na sua arte?
Não acredito nesse mito do Brasil como uma terra de homens fortes: o Brasil é um país de mulheres. São elas que fazem todos os grandes movimentos. Cada vez mais, no desajuste social em que vivemos, são elas que têm sustentado muitas casas. A alma mineira é a alma da mulher, pois a célula que gera tudo é a mãe. Só percebi isso, aplicado à estética de “Redemoinho”, depois, mas vi que as heroínas dos meus trabalhos, as forças que movem tudo, são as mulheres. E as grandes personagens do George são as mulheres.
Quais são os planos para “A Crônica da Casa Assassinada”?
O roteiro do George Moura está pronto. Já teve uns quatro tratamentos. Mas o cinema está parado. Uma hora o filme sai. Quero que minha volta à direção seja com ele.

