É Tudo Verdade: Ruy Guerra nas fronteiras hipotéticas entre factos e ficção

(Fotos: Divulgação)

Nomeado três vezes à Palma de Ouro e quatro vezes aos Ursos da Berlinale, de onde saiu com um par de Prémios Especiais do Júri (por “Os Fuzis”, em 1964, e por “A Queda”, em 1978), Ruy Guerra comemora 90 anos no dia 22 de agosto, em plena atividade, com um filme inédito para lançar: “Aos Pedaços”.

Projetado presencialmente em Roterdão, em janeiro de 2020, a saga de um homem ameaçado de morte por alguém chamado A. (que pode ser uma das suas duas mulheres) rendeu a Guerra o Kikito de melhor direção no Festival de Gramado, em setembro.

É um bom exemplar da inquietação do cineasta moçambicano, de origem portuguesa, que se radicou no Brasil há décadas. Essa inquietação é o assunto da homenagem que ele vai receber no festival É Tudo Verdade, agendado de 8 a 18 de abril, online. Dele serão exibidos  “Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização” (1984) e “Mueda: Memória e Massacre” (1979/80).

Será ainda apresentada a sua cinebiografia “O Homem Que Matou John Wayne”, realizada por Bruno Laet e Diogo Oliveira em 2017. Dedicado neste momento a escrever poemas, canções e guiões, Guerra falou com o C7nema sobre a dimensão documental da sua travessia documental.


Qual é a fronteira que ainda existe, hoje, na representação, entre documentário e ficção?

Nenhuma. Vejo o documentário como um género, assim como o western ou a ficção científica. Todo o filme parte de escolhas de linguagem. Logo, ele não é o real. Toda a boa ficção tem um lado documental e todo o bom documentário tem uma vertente de ficção. O que separa os dois são os níveis de realismo, que, no documental, é mais aflorado. Mas há filmes que eu fiz com passagens que podem ser chamadas hoje de documentais.

Gramado, festival no Sul do Brasil onde seu ‘Aos Pedaços’ foi premiado, em setembro, teve que ser realizado online, no Canal Brasil Play, e na TV, por conta da pandemia. Como avalia essa aproximação do cinema com o streaming hoje?

É um caminho, mas eu ainda percebo que, nos streamings, são feitas mais séries do que filmes. O formato serializado segue uma dramaturgia mais diluída, com artifícios de gancho para poder manter o espectador que me parece guardar uma certa herança das novelas.  

Você dirigiu dois filmes portugueses: “Monsanto” (2000) e “Portugal S.A.”. (2004). Qual é a sua relação com o cinema português ao longo do tempo?

Acabei não desenvolvendo laços, para além desses dois filmes. Outros produtores chegaram procurar-me, com projetos, mas não foram adiante. Mesmo o cinema africano que fiz não foi muito além dos dois filmes que estão no É Tudo Verdade.

Como estão os seus planos para o fim da pandemia?

Tenho uma produção pré-montada na Bahia para rodar o filme “O Tempo À Faca”, que eu planeio contar também na forma de um romance. O romance atrasou, mas o guião saiu antes. E estou a escrever com a Luciana Mazzotti “A Fúria”, o terceiro tempo da trilogia que começou com “Os Fuzis” e seguiu com “A Queda”.

Últimas