Estrela da Disney (a Mitchie Torres em “Camp Rock”) transformada em cantora famosa e também ativista contra o bullying, Demi Lovato foi a protagonista escolhida para a abertura do SXSW, através do documentário realizado para o Youtube, “Demi Lovato: Dancing With The Devil”, que chegará à plataforma dividido em 4 partes.
Esta é uma viagem à carreira de uma cantora que em 2018 esteve à beira da morte depois de ter tido uma overdose. Sempre num registo fílmico pobre que mistura as palavras frontais de Lovato defronte da câmara, alguns videoclipes, ensaios musicais e imagens de arquivo, “Demi Lovato: Dancing With The Devil” é um daqueles produtos frequentemente encontrados num E! ou MTV que não tem um níquel de linguagem cinematográfica nele. Ou engenho. Ou arte.
Na verdade, este é apenas um produto para fãs interessados em espiolhar alguns detalhes mais sórdidos da overdose que sofreu e superou, e da sua luta para ultrapassar vários traumas, dependências e doenças do foro mental, como desordens alimentares e a bipolaridade, descoberta enquanto estava na reabilitação. Depois da overdose, também surgiram danos físicos, pois a cantora sofreu um ataque cardíaco, três derrames e vários contratempos cerebrais que lhe condicionam atualmente a visão, impedindo-a – por exemplo – de conduzir.
A música de Lovato e vários testemunhos, amigos, assistentes, o psicólogo e o chefe de segurança, também enchem o ecrã, mas a montagem e a realização de Michael D. Ratner teimam em não levar este projeto além do objeto fabricado a martelo e de forma limitada, onde derradeiramente a mensagem final é de triunfo e resiliência contra todos os obstáculos. Nesse aspeto, Lovato mostra-se acima de tudo com uma confiança e um sinto de esclarecimento renovado, fugindo ao negacionismo da sua frágil condição.
Mas se até temos empatia com a força da jovem cantora pela sua honestidade, abordando todos os temas de frente, sempre com esperança e até algum humor, tudo o que há de trabalho técnico por aqui é muito fraco, genérico e registado digitalmente sem qualquer valor além da peça jornalística de segundo nível. O típico objeto em que o convidado é muito mais interessante do que todos os artifícios usados para montar e contar a sua história.
E certamente, o que Lovato conta aqui – como o facto da sua primeira experiência sexual ter sido marcada por uma violação que sofreu nas mãos de um traficante – merecia um melhor arranjo e aprumo na exposição, mas nisto Michael D. Ratner nunca sai do registo fílmico derivativo e rasca.

