Saber misturar resiliência e sobriedade, sem jamais abrir mão da indignação frente à violência racial, e ser capaz de traduzir essa mistura em imagens é o que tornou o realizador brasileiro Joel Zito Araújo uma das vozes a serem ouvidas com mais urgência, no cinema mundial, quando o tema é a exclusão das populações negras.
Em 2019, a projeção de seu documentário “Meu Amigo Fela” no Festival de Roterdão, cercada de aplausos e debates calorosos, deu-lhe uma consagração internacional que coroa uma andança de três décadas pelo planisfério cinéfilo. Antes, há 20 anos cravados, ecrãs do mundo inteiro foram tocadas pela sua estética com “A Negação do Brasil”, uma reflexão sobre estratégias de segregação mediáticas (passando por telenovelas) a ser analisada por ele mesmo, nesta segunda-feira, no seminário Na Real_Virtual. O evento acontece online às segundas, quartas e sextas, a partir das às 19h (no Brasil, 22h em Portugal). A mediação é feita por um dos decanos da crítica latino-americana, Carlos Alberto Mattos, em parceria na curadoria com um dos mais prolíficos documentaristas hoje na atividade, Bebeto Abrantes. As conversas decorrem via https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
Referência obrigatória no cinema documental das Américas quando o assunto é o crime do racismo, Joel Zito, nascido na cidade de Nanuque, em Minas Gerais, está finalizando o que promete ser uma injeção de lirismo nas veias abertas (pela exclusão) dos latinos: uma ficção chamada “O Pai da Rita”. O tema é o que pode haver de mais político nestes tempos de mil polarizações: a amizade, que, na sua narrativa, une dois craques do samba, a partir da descoberta da paternidade. É dele ainda o aclamado melodrama “Filhas do Vento”, que garantiu ao cineasta o troféu Kikito de melhor direção no Festival de Gramado de 2004. Na conversa com o C7nema, ele fala dessa imersão pela seara ficcional, que é uma das vertentes de uma filmografia iniciada em 1988. Uma trajetória audiovisual com os olhos bem abertos para as práticas plurais do ódio e com os pés fincados na realidade de violências institucionais de sua pátria. Realidade que ele transforma ora em denúncia explícita (caso de “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado”), ora em aulas de lirismo (como “São Paulo abraça Mandela”). Na conversa a seguir, ele antecipa ao C7 parte das inquietações que servirão de leme ao corpo a corpo com o público do Na Real_Virtual.
O que a prática documental ensinou a você sobre o Brasil e sobre o próprio ofício do cinema? De que realidade você parte e a que realidade(s) você tem chegado?
Eu acho que o cinema de ficção leva-te para o Céu, mas o cinema documental leva-te para todos os lugares. Os meus filmes documentais integram uma linha de trabalhos mais reflexivos nesta área. Tem muita pesquisa do início ao fim. E provocam demasiadamente a pensar sobre os temas em que mergulho, além de terem dado a mim a oportunidade de aprofundar o olhar sobre a questão racial no Brasil e no mundo. Os festivais levaram-me a todos lugares, e deram-me a chance de observar como se dá as relações raciais e o racismo em muitos lugares da África, da Europa, dos EUA, da Índia e da América Latina. Portanto, acho que este é o meu ponto de partida e de chegada: a observação sobre o quanto o ser humano usa da diferença racial para se enriquecer, para explorar os outros, para desenvolver uma autoestima distorcida. E, por outro lado, o quanto que a vivência desta experiência tão negativa em sua origem, produziu guerreiros, produziu seres humanos excepcionais como Mandela, Fela Kuti, Martin Luther King Jr., Malcom X, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Nina Simone, Ruth de Souza, Léa Garcia, e tantos outros e tantas outras.
O que o rótulo “cinema negro” simboliza hoje; em que medida você se encaixa ou se encaixou nele; quais são as novas trilhas a alcançar na luta contra a intolerância que, há muito, guia realizadores negros no Brasil?
Eu sou totalmente parte deste rótulo. Creio que vivemos uma etapa da humanidade em que tensionar o debate sobre os nossos racismos é uma necessidade. Não tem outra forma de superar o problema da discriminação e do racismo. E descobri isto em minha juventude, no momento inicial em que entrei no cineclubismo mineiro e, de certa forma, comecei a dar os primeiros passos no cinema. Para todos nós, com ascendência africana, o processo de nos “tornarmos” negros, mesmo sendo miscigenados, é um ritual de passagem que nos torna autoconfiantes, desenvolve nossa autoestima e cidadania. Para a geração atual é até mesmo um factor de empoderamento, num movimento inverso à história de nossa sociedade que, por vários séculos, sempre fez da condição de ser negro um factor de desvantagem, um elemento de exclusão, de exploração e de sofrimento.
Quais as vozes negras do documentário internacional hoje mais te contagiam?
O primeiro documentarista negro que chamou fortemente minha atenção, e me inspirou, foi Marlon Riggs, um afro americano que morreu precocemente, em decorrência da Aids, em 1994. Ele tem duas obras fundamentais “Tongues Untied”, de 1989, e “Color Adjustment”, de 1992. O segundo é o filme que me provocou a fazer “A Negação do Brasil”. Mas tem muitos outros e outras que despertam a minha atenção. Por exemplo, contagia-me a longa atenção sobre a realidade política e cultural dos EUA de Stanley Nelson; os documentários políticos do amigo sul-africano Rehad Desai; os ensaios vanguardistas britânicos/ganenses de John Akomfrah; os docudramas poéticos do britânico Isaac Julien; o olhar moderno e conciso de Ava Duvernay. Enfim, é muita gente, é difícil de destacar aqui.
O que “O Pai da Rita”, o seu novo trabalho, na ficção, tem a dizer sobre o lugar do feminino e do masculino hoje no Brasil? O que um ator como Ailton Graça trouxe para o seu trabalho? O que reside de documental nesse filme?
Pois é, este é um outro campo de atenção para mim. Sempre brinco que tenho de matar um machista por dia dentro de mim, para viver bem com o feminino de dentro e de fora. Assim como acho que quem é branco devia matar também um racista por dia dentro de si. Portanto, a questão da relação entre o masculino e o feminino atravessa a minha obra. E fico feliz quando reconhecem isto. E eu mesmo só percebi que existia esta dimensão nos meus trabalhos quando olhei para trás. “O Pai da Rita” é um filme sobre dois machos negros na meia idade, sambistas, boémios, mulherengos, que, bem tarde em suas vidas, descobrem a paternidade, com o aparecimento da Rita. E além da Rita, vivida por Jéssica Barbosa, tem outras mulheres poderosas no filme que são interpretadas pela Elisa Lucinda, Léa Garcia e Nathália Ernesto. É uma comédia dramática que se passa no bairro do Bixiga e tem a história da escola de samba Vai-Vai dando todo o contorno. O meu prazer com o documentário influencia a existência de muitas cenas. Mas tenho que evitar spoillers para não atrapalhar o prazer de quem vai assistir o filme. A relação com os atores e atrizes foi um prazer à parte. É sempre uma delícia trabalhar com gente tão criativa e generosa. Ailton é especial, Léa e Elisa são especiais, Wilson Rabelo é especial. Enfim sou um sortudo por construir um filme com e eles e tanta gente especial que não vou poder elencar todos e todas aqui. A paixão de um ator e de uma atriz por um filme faz toda diferença. A paixão de todos da equipe no processo e no set de filmagens fica como uma memória deliciosa e eterna.

