‘Alfazema’ na Mubi: o perfume da descolonização na folia criativa de Sabrina Fidalgo

(Fotos: Divulgação)

A mil por hora no seu processo de criação, debruçada sobre uma reflexão documental acerca do estado de coisas do mundo e sobre o projeto de longa-metragem “Karnaval”, a cineasta Sabrina Fidalgo vive hoje uma fase de fervura máxima do seu prestígio internacional, coroada com a escolha do seu trabalho mais recente, a premiada curta “Alfazema”, para integrar o menu da MUBI.

Pautado por uma curadoria humanizada, focada em expressões autorais, a plataforma de streaming – que junta de Tsai Ming-liang a Éric Rohmer – abre as suas portas para a realizadora mais badalada do Brasil na atualidade a partir do dia 16, projetando a sua estética para o mundo. O filme escolhido – parte de uma parceria com o Cabíria Festival – é parte de uma trilogia sobre as festas carnavalescas, iniciada por Sabrina com “Rainha”, que mobilizou os olhares do Festival de Roterdão em 2019. Nele, Deus, vivido pela poeta e atriz Elisa Lucinda, tem que mediar um conflito entre duas entidades (Bianca Joy Porte e Bruna Linzmeyer), um folião (Victor Albuquerque) e uma mulher que se vê bombardeada pelas serpentinas de Rei Momo: Flaviana, papel que extrai de Shirley Cruz um memorável desempenho.

Na entrevista a seguir ao C7, Sabrina faz uma análise dos conflitos raciais (um dos focos de sua reflexão) e fala de seu Deus, uma multiartista negra, aclamada na poesia.   

O que ‘Alfazema’ apresentou a você sobre o Carnaval carioca? Ou seja, que novo olhar sobre a folia o filme trouxe e de que maneira essa curta relaciona-se com os dois outros filmes da sua trilogia sobre a folia?

Alfazema” apresenta o carnaval sob o prisma da liberdade. Fala daquele único hiato do ano em que nos é permitido sermos fiéis à nossa própria natureza sem medo de sofrermos represálias. E isso vale para ateus, cristãos, caretas ou não. O carnaval de “Alfazema”, ao contrário do carnaval de “Rainha” (2016) – o média-metragem que abre a “Trilogia do Carnaval” – é uma folia que se passa do lado de fora daquele banheiro onde tudo na trama acontece, na rua. Ouvimos o frenesim vindo da externa ao longo do filme e isso é propositado. As personagens falam o tempo inteiro que querem “sair” para curtir a folia.  É um filme sobre a preparação para o carnaval. É também um filme sobre a preparação/tentativa de se filmar durante o carnaval. E também é sobre a carnavalização do fazer artístico na nossa maior expressão de brasilidade; a espontaneidade. E isso me fez ver a importância desse evento em nossas vidas e como ele nos perpassa e nos atravessa direta e indiretamente de tantas e diferentes maneiras. Especialmente a nós, cariocas.

Você escolheu uma mulher negra, poeta, como Deus. Qual é o simbolismo de ter Elisa Lucinda em cena, num papel que sintetiza a fé?

O simbolismo de ter uma artista da magnitude de uma Elisa Lucinda atuando num filme meu e interpretando DEUS é literal. Uma multiartista do tamanho de Elisa simboliza a própria criação em si. Ela é uma das maiores, senão a maior artista desse século que esse país já produziu. E seria muito bom se todos soubessem disso.

De que maneira você vê, hoje, a ampliação das temáticas e das representações das populações negras no nosso audiovisual? Apareceu mesmo um novo rol de temáticas negras?

Eu vejo com cautela. Em um artigo meu para a minha coluna do HuffPost Brasil, escrevi sobre o “roubo das narrativas”. Durante todos esses anos, com raras exceções, autores brancos só se ocupavam com temas e narrativas da branquitude. E quando finalmente as pautas e representações populares negras se tornam interessantes para o mercado e para o capital vemos uma debandada desses mesmos autores brancos se apropriando dessas narrativas e sendo novamente privilegiados em detrimento de realizadores negros, que podem e devem narrar suas próprias histórias, mas não conseguem por conta do racismo estrutural do audiovisual brasileiro. Todo o mundo pode e deve querer contar toda e qualquer história, mas eu chamo atenção para essa “nova” estratégia de apropriação por pura manutenção do status quo. Eles (a branquitude) não abrem mão do protagonismo e é lamentável ver isso. Vivemos um momento de guerra de narrativas. Dito isso, é facto que o mercado audiovisual brasileiro tem que entender de uma vez por todas que não há mais volta para o projeto hegemónico de um fazer cinema embranquecido. A diversidade no cinema brasileiro só será real quando as pessoas negras e indígenas puderem ter os mesmos privilégios ao narrar suas próprias histórias. Para isso, os seus filmes precisam ser igualmente incentivados, fomentados, patrocinados, selecionados, premiados, distribuídos, promovidos, comercializados. Não é mais viável na atual conjuntura global continuar alimentando apenas o cinema brasileiro realizado pelo patriarcado-cis-héteronormativo-branco de elite. Já passou da hora de descolonizarmos essas narrativas. Ninguém aguenta mais.

Quais são seus projetos atuais e quais são os seus planos para longas-metragens? 

Eu estou há meses trabalhando num projeto lindo de um documentário sobre o zeitgeist atual, mas por questões contratuais nada mais posso falar sobre. E tampouco posso falar sobre “Karnaval”, a terceira parte da minha “Trilogia do Carnaval”, que vem a ser uma longa, diferentemente dos filmes anteriores, os curtas “Alfazema” (2019) e “Rainha” (2016). Por força das circunstâncias, alguns projetos pararam e outros entraram na fila de espera, só aguardando o momento certo para virem à tona. É a vida. Além disso, também estou a trabalhar em dois projetos literários. Um é sobre as mulheres negras no cinema brasileiro. O outro será uma colectânea de textos meus publicados entre 2019 e 2020 na coluna “Quadro Negro”, de Dodô Azevedo, da Folha de S. Paulo, e na minha própria coluna, do HuffPost Brasil, com comentários de artistas e inteletuais que também pensam a pauta antirracista e descolonial. Nunca trabalhei tanto como nesse estranho ano de 2020.

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